17 anos depois, UE aceita extrema-direita no governo austríaco

Em 2000, aliança FPÖ e ÖVP levou ao isolamento da Áustria. Hoje a mesma fórmula já não causa escândalo

Estava-se na segunda presidência portuguesa da UE, em 2000, quando o escândalo rebentou: o partido de extrema-direita FPÖ chegava ao governo austríaco por via de uma coligação com os democratas-cristãos do ÖVP. A UE tinha na altura 15 Estados membros e numa decisão inédita desde a fundação do clube europeu, 14 decidiram isolar um e cortar todos os contactos. 17 anos depois, FPÖ e ÖVP voltam ao poder, mas a UE, agora a 28, não parece muito incomodada. E a 1 de julho a Áustria até vai assumir a presidência rotativa da UE.

"Estou confiante de que o governo austríaco continuará a desempenhar um papel construtivo e pró-europeu na UE", escreveu o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, numa carta que foi tornada pública na segunda-feira. O responsável polaco desejou as maiores felicidades ao novo chanceler austríaco e líder do ÖVP, Sebastian Kurz, que tem apenas 31 anos. O mesmo fizeram os líderes principais governos da União Europeia, como Alemanha ou França.

Kurz tomou posse na segunda-feira e ontem fez a sua primeira viagem ao exterior, a Bruxelas, onde se reuniu não só com Tusk, mas também com o presidente da Comissão Europeia, o luxemburguês Jean-Claude Juncker. Através do Twitter, o jovem chanceler prometeu que o seu governo "será claramente pró-europeu e comprometido com a ideia de dar um contributo positivo para o desenvolvimento da UE".

Usando a mesma rede social, o comissário europeu dos Assuntos Económicos e Financeiros considerou que "a situação é sem dúvida diferente da de 2000". Pierre Moscovici, ex-ministro das Finanças francês, sublinhou que "a presença da extrema-direita no poder nunca é inócua" e apelou à vigilância de todos "os democratas comprometidos com os valores europeus".

Os eurocéticos têm vindo a somar pontos na Europa: na Holanda a extrema-direita ficou em segundo nas legislativas, em França forçou uma segunda volta das eleições presidenciais, na Alemanha entrou no Parlamento. O FPÖ do agora vice-chanceler austríaco Heinz-Christian Strache deixou cair, por exemplo, a ideia de um referendo sobre a permanência da Áustria na UE, mas a verdade é que a coligação prometeu políticas mais duras para imigrantes e refugiados. "Queremos garantir a segurança do nosso país incluindo através da luta contra a imigração ilegal", disse Kurz à imprensa.

Ao contrário do que parece suceder com os líderes europeus, o Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Zeid Ra'ad Al Hussein, declarou, numa entrevista à AFP, estar "muito preocupado". O jordano diz que a situação representa "um desenvolvimento perigoso na vida política da Europa". A ONU é liderada por António Guterres, que, em 2000, aquando do isolamento da Áustria, era o primeiro-ministro português.

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