123 militares presos por traição ou roubo

Apoio das Forças Armadas é apontado como crucial para o governo do presidente Nicolás Maduro. Oposição voltou às ruas.

Pelo menos 123 militares venezuelanos foram detidos desde abril, acusados de traição, rebelião ou roubo, segundo documentos aos quais a agência Reuters teve acesso. Um sinal de que nem todos estão do lado do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, apesar de ser essa a mensagem das chefias militares. A oposição, que ontem voltou a convocar os venezuelanos às ruas um dia depois do ataque de alegados apoiantes de Maduro à Assembleia Nacional, tem apelado a que as Forças Armadas deixem de apoiar o governo, sem sucesso.

Segundo dados aos quais a Reuters teve acesso, referentes a três prisões venezuelanas, pelo menos 123 militares (capitães, sargentos, tenentes e soldados rasos) foram detidos desde o início dos protestos contra o governo de Maduro, em abril e meados de junho. Destes, 30 estão detidos por desertar ou abandono de funções e 40 por rebelião, traição ou insubordinação. A maioria dos restantes está detida por roubo, com os militares a enfrentarem as mesmas dificuldades que outros venezuelanos - como a falta de alimentos e medicamentos e inflação que, segundo o Fundo Monetário Internacional, deverá chegar aos 720% este ano.

"Isto mostra como o moral está em baixo, descontentamento e, claro, necessidade económica", disse um antigo general à agência. Os venezuelanos veem as Forças Armadas como tendo capacidade de influência para poder alterar a situação que se vive no país, com os dirigentes da oposição a exortar repetidamente os líderes militares a cortar laços com Maduro. Mas estes têm-se mantido ao lado do presidente. Ainda em abril, no sétimo aniversário das milícias bolivarianas, o ministro da Defesa, o general Vladimir Padrino López, disse que as Forças Armadas apoiam "incondicionalmente" Maduro. Na Venezuela, há cerca de 150 mil militares.

"Não somos submissivos, não nos ajoelhamos, não nos rendemos", disse López num evento na celebração dos 206 anos da assinatura da Ata da Independência da Venezuela, fazendo também um apelo à paz e ao fim da violência "mediante o diálogo, eleições e um acordo nacional por via da Assembleia Nacional Constituinte". Esta foi convocada pelo governo de Maduro, para reescrever a Constituição, com a oposição a acusar o presidente de querer dessa forma consolidar o poder e a apelar ao boicote da eleição de 30 de julho. No dia 16, farão um referendo simbólico sobre o tema. Uma consulta que o vice-presidente do partido de Maduro, Diosdado Cabello, considerou ontem como "planos golpistas".

Alguns deputados opositores alegaram ontem que membros da Guarda Nacional Bolivariana (GNB) limitaram-se a observar, não tendo feito nada para travar o ataque na véspera na Assembleia Nacional, quando foram agredidos deputados, funcionários e jornalistas. Alguns ficaram mais de nove horas reféns no edifício, havendo relato de pelo menos 12 feridos. O ataque foi condenado pela comunidade internacional. A GNB tem liderado o policiamento dos protestos no país, sendo acusada de usar gás lacrimogéneo e balas de borracha contra os manifestantes, que usam pedras e cocktails Molotov. Pelo menos 91 pessoas já morreram nos protestos.

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