"Eu sabia que o apoio da comunidade portuguesa era essencial"

Aos 19 anos o lusodescendente Zachery Ramos quer ser o mais jovem 'mayor' da Califórnia. É candidato em Gustine, na Califórnia

Zachery Ramos ainda se lembra da primeira vez que comeu um pastel de nata. Estranhou a parte queimada. Mas o pai insistiu e agora come cinco sempre que os vê. Candidato a mayor de Gustine, na Califórnia, se for eleito o lusodescendente de 19 anos será o mais jovem presidente de Câmara naquele estado dos Estados Unidos. O apoio da comunidade portuguesa foi fundamental na sua campanha, diz, sublinhando que se ao início as pessoas desconfiam da sua falta de experiência, depois de falarem sobre as suas ideias para desenvolver a cidade os eleitores mudam de ideias.

Se vencer as eleições para a presidência da Câmara de Gustine será o mayor mais jovem da Califórnia. Como lidar com tamanho responsabilidade ?

Vou lidando com isso um dia de cada vez. Por vezes pode ser um pouco avassalador quando estou em campanha a falar com os eleitores ou num encontro com empresários locais e agricultores a discutir o que eles querem para a sua cidade. O que é há de melhor nisto é provar aos residentes que sim, posso ser jovem, mas consigo trabalhar duro para tomar conta dos nossos parques ou para conseguir mais apoios para os veteranos. Um dia uma senhora chegou ao pé de mim depois de um comício e disse-me que estava preocupada com a minha falta de experiência e com a minha idade, sugerindo que devia ter-me candidatado primeiro a vereador. Mas depois de me ouvir falar convidou-me para jantar e para conhecer outras pessoas sobre o que fiz e o que planeio fazer pela nossa cidade em vez de discutir assuntos que os outros querem discutir.

Porque decidiu envolver-se na política?

Decidi envolver-me porque queria fazer a diferença pela minha comunidade e sabia que esta era uma forma de o fazer.

Quais os políticos que mais o inspiram?

Os políticos que mais me inspiram são John F. Kennedy, Ronald Reagan, o marquês de Lafayette, Winston Churchill e Margaret Thatcher. Só para dar alguns exemplos. Eu sei que é um grupo de pessoas muito diverso, mas cada um deles é impressionante de uma forma particular.

O seu pai é português. O apoio da comunidade é importante na sua campanha?

Sim, o meu pai e toda a minha família paterna são portugueses. O meu avô trouxe a mulher, o meu pai e os irmãos para a América para começar uma vida melhor e dar aos filhos a hipótese de terem um futuro mais brilhante aqui nos EUA. O meu avô e o meu bisavô foram ambos militares em Portugal essa é uma das razões pelas quais o meu coração está com os militares tanto em Portugal como nos EUA. Em Gustine a comunidade portuguesa é muito carinhosa uma vez que todos se conhecem e se te conhecem é melhor estares preparado para te convidarem para ires à casa deles comer linguiça e broa. Eu sabia que o apoio da comunidade portuguesa era essencial em Gustine e temos trabalhado nesse sentido. Fui apoiado pela Califórnia Portuguese American Coalition, uma associação de políticos lusodescendentes da Califórnia que trabalham juntos para encontrar soluções para os problemas da comunidade.

O Zachery não fala português, mas até que ponto foram importantes as tradições familiares na sua infância?

Sim, eu não falo português mas a família do lado do meu pai fala sempre quando nos juntamos. Adoro as tradições portuguesas e comi muita comida portuguesa quando era criança. Quando chega a época das festas, juro que engordo cinco quilos só a comer pastéis de nata. A primeira vez que comi um, nem queria provar porque parecia queimado por cima, mas o meu pai insistiu e agora sempre que os vejo num evento, não resisto a comer uns cinco.

Conhece Portugal?

Conheço os Açores. O meu pai e o meu avô vieram de São Jorge e ainda têm terras na ilha, que planeio visitar. Conheci o primeiro-ministro António Costa quando ele esteve na Califórnia e falei com ele sobre a minha candidatura a mayor. Ele sorriu e disse-me que era muito bom ver um jovem lusodescendente envolver-se na política americana. Mantenho-me a par dos grandes acontecimentos em Portugal e tenho muitos amigos que viajam muitas vezes para os Açores. Depois das eleições planeio ir a Portugal e visitar a família que ainda lá vive.

Artigo corrigido às 18:11

Ler mais

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Bernardo Pires de Lima

Em contagem decrescente

O brexit parece bloqueado após a reunião de Salzburgo. Líderes do processo endureceram posições e revelarem um tom mais próximo da rutura do que de um espírito negocial construtivo. A uma semana da convenção anual do partido conservador, será ​​​​​​​que esta dramatização serve os objetivos de Theresa May? E que fará a primeira-ministra até ao decisivo Conselho Europeu de novembro, caso ultrapasse esta guerrilha dentro do seu partido?