Índice de Desenvolvimento Humano global cai pela primeira vez

A queda no IDH global equivale a apagar os últimos seis anos de desenvolvimento humano, prevê um relatório da ONU.

As consequências da pandemia do novo coronavírus fazem sentir-se em todo o mundo e não se limitam à saúde. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que mede os níveis de saúde, educação e qualidade de vida dos países desde 1990, deverá pela primeira vez apresentar uma quebra.

"O mundo assistiu a muitas crises nos últimos 30 anos, incluindo a crise financeira mundial de 2007-09. Cada uma delas atingiu duramente o desenvolvimento humano mas, globalmente, os ganhos de desenvolvimento acumulados a nível mundial aumentaram de ano para ano. O covid-19 - com o seu triplo impacto na saúde, educação e rendimento - pode alterar esta tendência", comentou Achim Steiner, administrador do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento., a agência responsável pelo estudo do IDH.

Steiner baseia-se num relatório divulgado na quarta-feira sobre os efeitos da crise. Para tal, o relatório baseou-se em modelos com um IDH ajustado com a dimensão da educação modificada para contemplar os efeitos do encerramento das escolas e das medidas de mitigação da pandemia e que incluem as previsões do Produto Nacional Bruto (PNB) per capita para 2020.

As simulações sugerem "um declínio brutal e sem precedentes do desenvolvimento humano". Com quase nove em cada 10 estudantes fora da escola e "com recessões profundas na maioria das economias (incluindo uma queda de 4% do PNB per capita a nível mundial)", a queda no índice "seria equivalente a apagar todos os progressos no desenvolvimento dos últimos seis anos".

A confirmar-se a projeção, será a primeira vez que o IDH cai para valores negativos, em termos globais, desde o ano inaugural em que apresentou resultados, 1991.

Os autores ressaltam que, caso as condições de acesso às escolas sejam restabelecidas, as variáveis relacionadas com a educação recuperariam de imediato, ao contrário da dimensão do rendimento, dependente da evolução da recuperação económica pós-crise.

Internet reduz queda do IDH

As simulações mostram também a importância de promover a equidade. "Num cenário com um acesso mais equitativo à internet - em que cada país colmata o fosso com os líderes na categoria de desenvolvimento humano - o declínio do desenvolvimento humano seria reduzido para mais de metade", lê-se no relatório.

Aliás, em matéria de desigualdades, o caso da educação é paradigmático. Em resultado do encerramento do ensino primário, 60% das crianças deixaram de receber educação. Mas, numa análise mais aprofundada, esta média esconde enormes diferenças que espelham o fosso digital no planeta. O abandono escolar afeta na realidade 20% das crianças em países com um elevado IDH e 86% em países com um baixo IDH.

O relatório aponta para o agravamento de outros problemas, os efeitos da pandemia que ainda vão reproduzir-se, como as 6 000 mortes diárias de crianças evitáveis, o agravamento das desigualdades de género ou o aumento da violência doméstica, num mundo em que 30% aceita que os homens batam nas mulheres.

Equidade é palavra-chave

"Esta crise mostra que, se não conseguirmos levar a equidade para o conjunto de ferramentas políticas, muitos ficarão ainda mais para trás. Isto é particularmente importante para as 'novas necessidades' do século XXI, como o acesso à internet, que nos está a ajudar a beneficiar da teleducação, da telemedicina e do teletrabalho", afirma o português Pedro Conceição, diretor do Gabinete de Estudos de Desenvolvimento Humano do PNUD, no site da agência.

O PNUD apela à comunidade internacional para que invista na capacidade dos países em desenvolvimento para enfrentarem a crise.

E em consonância com o plano das Nações Unidas para a resposta socioeconómica à crise do covid-19, é destacada a importância de uma governação responsável, equitativa em termos de género e orientada para a proteção do meio ambiente, a partir da qual se possa construir uma "nova normalidade".

Alterações climáticas na equação

Nessa resposta, "uma abordagem sistémica - mais do que uma abordagem setorial - é essencial". O relatório cita um inquérito recente realizado em 14 países que concluiu que 71% da população mundial consideram que as alterações climáticas são uma crise tão grave como a pandemia, com dois terços a apoiar ações governamentais para dar prioridade às alterações climáticas durante o período de recuperação.

O relatório, intitulado "Covid-19 e o desenvolvimento humano: avaliar a crise, perspetivar a recuperação" termina com uma nota de otimismo: "Sobretudo, a crise é um forte alerta para o facto de que é improvável que a humanidade se mantenha saudável num planeta doente. Por nossa conta e risco ignoramos a nossa rutura da natureza . Mas a crise mostrou o potencial dos seres humanos para agirem em conjunto para fazer face a um desafio global comum."

E conclui: "Sim, a resposta foi irregular, fragmentada e incoerente, mas praticamente em todo o lado milhares de milhões de pessoas mudaram o seu comportamento para enfrentar uma ameaça comum. Isto deixou bem claro que - das alterações climáticas e extinção biológica de espécies até às desigualdades crescentes em matéria de reforço das capacidades - enfrentar outros desafios coletivos está ao nosso alcance."

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