Índia cada vez mais desigual desafia China cada vez mais poderosa

A competição entre os dois gigantes asiáticos verifica-se na diplomacia e na geopolítica. Mas estão forçados à cooperação na economia

A China e a Índia foram os países em que mais cresceram as vendas de automóveis em 2017, tendo sido adquiridos no primeiro país mais de 28,6 milhões de viaturas e no segundo 4,1 milhões. O volume de vendas revela a dimensão das duas economias, as potencialidades e limites de duas grandes potências asiáticas que mantêm entre si uma relação tensa herdada da história, ao mesmo tempo que estão obrigadas à cooperação em certas áreas.

A Índia não deixa de olhar com desconfiança o poderoso vizinho do Norte, com o qual tem um pesado défice comercial (sendo o sétimo principal destino das exportações chinesas), diferendos territoriais na longa fronteira comum (mais de 3300 quilómetros na atualidade) e uma competição em crescendo nas áreas da diplomacia internacional, geopolítica e tecnologias.

Se o peso demográfico da Índia é um argumento poderoso para o país hoje governado pelos nacionalistas hindus do BJP, partido do primeiro-ministro Narendra Modi - que ultrapassará a China por volta de 2024-5 como nação mais populosa do mundo -, outros indicadores deixam a claro as suas profundas fraquezas. Dois exemplos: quase 30% dos 1,2 mil milhões de indianos vivem abaixo da linha de pobreza (na China o número é de 2%) e a taxa de literacia é de 72,9% (na China é de 96,3%), isto é, abaixo da média universal, que é de 84%.

Ainda no capítulo demográfico, um perito chinês na matéria, Yi Fuxiang, explicava em maio numa entrevista ao The New York Times que o declínio populacional do seu país se devia apenas às políticas de natalidade de mais de três décadas, forçando os casais a terem só uma criança, e seus efeitos perversos, como o abandono de bebés do sexo feminino. Uma política só abandonada em 2015, por decisão do presidente Xi Jinping. O fator demográfico é fundamental para alimentar a a população ativa no mercado de trabalho, sublinhou o mesmo especialista. E, se neste ponto a Índia está longe de caminhar para a estagnação - "a população vai crescer nos próximos 30 ou 40 anos", considerou no mesmo artigo um especialista em estudos de população, K.S. James, da Universidade Jawaharlal Nehru, de Nova Deli -, os indicadores nas questões da pobreza e da literacia provam que está ainda longe de ser uma potência com a projeção global que é hoje já a da China. Diferentes avaliações dão à economia indiana cinco a seis vezes menor dimensão do que à chinesa.

A economia indiana tem crescido a valores elevados, mas a desigualdade e assimetrias sociais e entre os estados também estão a aumentar. Assim como o fosso entre os meios urbanos e rurais. Em 2015, uma análise do Fórum Económico Mundial notava que 82% da população não tinha acesso à internet, só em 12% dos agregados familiares existia um computador e apenas duas em cada cinco pessoas tinham telemóvel (sem ser smartphone). "A Índia tem vindo a ficar para trás em relação a outros países asiáticos em vias de desenvolvimento", concluía o documento.

Particularmente desde a chegada ao poder de Narendra Modi, em 2014, tem havido um esforço para mudar a situação. Paradoxalmente, com apoio da China. Quando visitou a Índia em setembro de 2014, o presidente chinês prometeu investimentos na ordem dos 20,7 mil milhões de dólares (17,5 mil milhões de euros) nos setores industriais e em infraestruturas. E no ano seguinte, na deslocação de Modi à China, novos contratos foram assinados. O que não impediu que Nova Deli protestasse, pouco antes da viagem de Modi, pela inclusão da "Caxemira ocupada pelo Paquistão" no projeto da Nova Rota da Seda (a Belt and Road Initiative), originalmente formulado por Xi em 2013.

Na mesma época, Modi apresentou o projeto Make in India (Produzir na Índia), com o objetivo de desenvolver e modernizar setores estratégicos da economia nacional, e atrair investimento estrangeiro, entre os quais o chinês. Ênfase especial foi dada aos setores das tecnologias da informação, industrial e às energias renováveis.

Se é importante para Nova Deli a cooperação com a China, a Índia sabe, por experiência própria, que está nesta esfera em competição com aquela que é hoje a segunda maior economia mundial. E conhece bem o preço a pagar por isso. A Índia tem procurado implantar--se na China na áreas das indústrias farmacêutica e de informática, onde, tal como os chineses, tem empresas de primeira linha, mas sem sucesso. O mercado chinês permanece altamente protecionista e a criação de empresas estrangeiras no país continua sujeita a restrições.

Perante a crescente afirmação da China, Nova Deli tem procurado aliados entre aqueles que nutrem reservas sobre os fins últimos de Pequim. O Japão é um deles; o outro, e mais importante, são os EUA, com os quais desenvolveu uma "parceria estratégica global". Após a visita de Barack Obama, em janeiro de 2015, à Índia, os dois países adotaram "uma visão estratégica comum para a Ásia-Pacífico e para a região do oceano Índico", numa clara indicação de que há limites àquilo que, quer em Nova Deli quer em Washington, é considerado como "tentações expansionistas" de Pequim na região. No comunicado final daquela visita há mesmo uma referência expressa "à liberdade de navegação no mar do Sul da China", onde Pequim tem prosseguido uma política agressiva com a ocupação de pequenas ilhas e atóis.

É perante o desafio das "tentações expansionistas" de Pequim que Nova Deli procura ser um contrapeso geopolítico alternativo, tanto mais que a relação entre a China e o Paquistão (o inimigo histórico da Índia) tem vindo a consolidar-se. O que explica a aproximação aos EUA, que, por sua vez, têm vindo a distanciar-se do Paquistão. A Índia sabe que é e vai ser um grande poder, mas sabe também que vai ter sempre presente a sombra da China.

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