Indecisão marca referendo sobre UE na Dinamarca

Medidas adotadas em caso de vitória do "sim" não interferem na política de imigração e o "não" quer seguir exemplo de Londres

Os dinamarqueses decidem hoje em referendo se dão ao Parlamento poder para decidir a adesão (opt-in) a determinadas políticas comunitárias de justiça e polícia, as quais gozam atualmente de uma cláusula de isenção (opt-out). Esta é a primeira vez desde o referendo de 2000, no qual os dinamarqueses rejeitaram a adesão ao euro, que um dos quatro opt-outs conquistados por Copenhaga em 1992 é levado a votação. O resultado está na mão dos 20% a 30% de indecisos.

O governo e os maiores partidos têm feito campanha para que os eleitores permitam ao Parlamento adotar determinadas regras europeias referentes à Justiça e aos Assuntos Internos, alegando que só isso permitirá a permanência da Dinamarca na Europol, a agência europeia de polícia. No entanto, os analistas dizem que a campanha pelo "sim" tem sido confusa, enquanto o nacionalista Partido Popular Dinamarquês (PPD), defensor do "não", tem passado uma mensagem simples: é preciso rejeitar que a União Europeia tenha ainda mais poder sobre o país. O PPD tornou--se o segundo maior partido da Dinamarca após as legislativas de junho e tem apoiado o governo minoritário do primeiro-ministro Lars Loekke Rasmussen.

Este referendo - originalmente marcado para 2016, mas antecipado para não interferir na campanha do referendo britânico sobre a UE em 2017 - surge numa altura em que a Europa enfrenta a sua maior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial, apostando no controlo de fronteiras de forma a evitar a infiltração de terroristas, principalmente desde os atentados de Paris, reivindicados pelo Estado Islâmico.

Má comunicação

As sondagens mostram um equilíbrio entre os dois lados, com o "não" a surgir com uma ligeira vantagem dentro da margem de erro. Os indecisos situam-se entre os 20% e os 30%. Apenas uma sondagem refere que um em cada cinco dinamarqueses estão inclinados a votar "sim" por causa dos atentados de Paris.

"O lado do "sim" não soube pôr a questão fundamental de onde é que a Dinamarca deve colocar-se no futuro da União Europeia. Não há qualquer entusiasmo do "sim", limitam-se apenas a defender que não é assim tão mau", explicou à Reuters Marlene Wind, professora na Universidade de Copenhaga. "A grande vantagem do lado do "não" é que as pessoas estão completamente alienadas, não fazem ideia do que está em causa", acrescentou a mesma fonte.

Uma vitória do "não" na Dinamarca seria uma boa notícia para o partido eurocético britânico UKIP, que defende a saída de Londres da UE e espera vencer o referendo que deverá realizar-se no Reino Unido em 2017. David Cameron está a tentar renegociar as condições da relação entre o Reino Unido e a UE, tendo ontem sido noticiado que a intenção do primeiro-ministro britânico é que estas fiquem concluídas até ao final do ano por causa do referendo. O Partido Popular Dinamarquês já afirmou que gostaria de seguir o exemplo britânico de renegociação e referendo, caso Cameron seja bem-sucedido.

A Dinamarca precisa de adotar determinadas medidas comunitárias por causa de uma reforma da Europol, que irá mudar a maneira como recebe e analisa dados. Os liberais, no poder, os sociais-democratas, da ex-primeira-ministra Helle Thorning-Schmidt, e vários outros partidos concordaram com as 22 medidas da UE que a Dinamarca teria de adotar em caso de vitória do "sim". E todos têm sublinhado que estas medidas não dizem respeito à imigração - uma outra área da política de Justiça e Assuntos Internos da qual a Dinamarca está isenta, o que quer dizer que não é obrigada a participar no sistema de quotas de refugiados.

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Ferreira Fernandes

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