Incidentes entre Holanda e Turquia ajudam tanto Wilders como Erdogan

Em vésperas das eleições holandesas, o líder do eurocético e islamofóbico PVV vê uma das suas bandeiras dominar o final da campanha. A um mês do referendo na Turquia, o populismo do presidente também pode sair a ganhar.

"A Holanda não vale nem a pele de uma laranja", gritava Emre Kahraman, líder da juventude do AKP, o partido islamita do presidente Recep Erdogan diante de um grupo de militantes reunidos na província de Koaceli. Os jovens esmagaram laranja - símbolo do reino holandês, liderado pela casa de Orange-Nassau desde o século XVI - e beberam o sumo, em protesto por aquele país ter impedido dois ministros turcos de participar em comícios pró-Erdogan. Indiferente aos apelos à calma da União Europeia e da NATO em véspera das legislativas holandesas, também Geert Wilders, o líder do eurocético e islamofóbico PVV, veio deitar achas para a fogueira no Twitter: "Erdogan repete que somos nazis + fascistas. Insulta a polícia holandesa. Não reduzir tensão. Expulsem o embaixador turco na Holanda e a sua equipa!"

Com os holandeses a irem às urnas amanhã para escolher o Parlamento e os turcos a serem chamados a pronunciar-se em referendo, a 16 de abril, sobre o reforço dos poderes presidenciais , os incidentes dos últimos dias não podiam deixar de entrar nas campanhas. Em ambos os países há quem tente ganhar votos com esta tensão, que alimenta os discursos autoritários característicos das campanhas de Wilders e Erdogan. Ontem o ministro dos Assuntos Europeu turco defendeu a revisão do acordo migratório com a UE. Com mais de três milhões de refugiados, sobretudo sírios, no seu território, a Turquia quer "reavaliar a questão das passagens por terra", cobertas pelo acordo de março de 2016, explicou Omer Celik.

O acordo, pelo qual a Turquia aceitou receber de volta os migrantes que entram ilegalmente na Grécia, permitiu reduzir o fluxo de migrantes para a UE por rotas marítimas e terrestres. Agora que as relações entre Ancara e várias capitais europeias está em crise, o próprio acordo pode servir como arma de arremesso nas mãos dos turcos.

Ao mesmo tempo que denuncia os métodos "nazis" e "fascistas" dos europeus que impediram os seus ministros de chegarem a uns comícios que visam ganhar os votos da enorme diáspora turca na Europa, Erdogan enfrenta ele próprio acusações de deriva autoritária. Para os críticos do presidente turco, o referendo de abril só tem uma finalidade: reforçar os seus poderes, tornando a Turquia num regime presidencialista, acabando com a figura do primeiro-ministro.

Dores de cabeça

Depois da tentativa de golpe de julho passado, Erdogan ficou na mira da comunidade internacional, depois de proceder a milhares de detenções. Envolvido na guerra na vizinha Síria com o país a ser alvo nos últimos meses de ataques terroristas tanto por parte do Estado Islâmico como dos separatistas curdos do PKK, não faltam dores de cabeça a Erdogan . E com a vitória no referendo de abril longe de estar garantida - as sondagens dão o empate entre "sim" e "não" -, o islamista moderado não hesita em recorrer à carta nacionalista para apelar às bases. "Não há nada pior do que esta situação. Deixa o populismo de Erdogan exprimir-se", disse à AFP Didier Billon, diretor adjunto do Instituto das Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS).

Um argumento que vale também do outro lado. Wilders - que as sondagens, depois de terem dado à frente, colocam em segundo, atrás do partido do primeiro-ministro Mark Rutte - chamou "ditador" a Erdogan. E os analistas garantem que se o governo "mostrou capacidade de decisão", mas "quando olhamos para o conjunto, o que aconteceu vai claramente ajudar Wilders", explicou à Bloomberg Kees Aarts. Para o professor de Ciência Política na Universidade de Groningen, o líder do PVV "não esteve muito visível na campanha e não se envolveu muito. Mas no final é a principal bandeira dele que está em jogo".

O próprio Rutte, de centro-direita, nas últimas semanas endureceu os tom em relação aos muçulmanos, tendo publicado um artigo nos jornais a alertar os imigrantes: "Hajam normalmente ou vão-se embora". Mas ontem pediu aos holandeses para serem os primeiros a travar o avanço do populismo na Europa.

A subida do discurso islamofóbico não escapou aos jornais turcos, com o Daily Sabah, pró-Erdogan, a escrever há dias: "Quando a sociedade é impelida a odiar os muçulmanos com argumentos xenófobos, vai acabar por odiar todos os "outro", por querer mais restrições, mais muros e mais protecionismo. E no fim isso irá levar ao fim da união que os europeus passaram décadas a construir". Uma perspetiva que não deixaria de agradar a Wilders. E talvez a Erdogan, cujo desejo de adesão à UE tem sido bloqueado.

Esta semana, a Holanda começou por impedir o avião do chefe da diplomacia turco, Mevlut Çavusoglu, de aterrar quando este se preparava para um comício em Roterdão. Era também para lá que seguia, de carro, a ministra da Família turca, Betul Sayan Kaya, quando foi levada pela polícia holandesa até à fronteira com a Alemanha. Uma atitude "fascista" segundo Erdogan, que ontem prometeu levar o caso ao Tribunal dos Direitos do Homem, em Estrasburgo.

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