Incidente de fim de ano levanta críticas à segurança do papa Francisco

A tentativa do papa Francisco em livrar-se das "garras" de uma fervorosa seguidora na noite de fim de ano levantou algumas perguntas, entre as quais uma relevante sobre o seu protocolo de segurança: porque não reagiram os guarda-costas do Papa a tempo de evitar aquela cena?

Muitas vezes apelidado de "Papa do Povo", a capacidade de Francisco em envolver-se com as pessoas - e o seu aparente prazer em fazê-lo - o coloca-o próximo das multidões que querem cumprimentá-lo. Seja tirando selfies com os fiéis, apertando as mãos ou abençoando crianças, o líder de 1,3 mil milhões de católicos de todo o mundo é protegido por guarda-costas de um corpo especial do Vaticano. Mas, na véspera de Ano Novo, na Praça de São Pedro, o mundo foi surpreendido por imagens televisivas demonstrativas de como a proximidade de Francisco com os fiéis também acarreta riscos acrescidos.

Nessa noite, uma mulher atrás de uma grade de segurança conseguiu agarrar a mão de Francisco, enquanto três homens de preto podiam ser vistos ao fundo. O papa teve de golpear a mão da mulher para se libertar, antes que um dos seguranças fosse visto a agarrar as mãos da mulher. No dia seguinte, Francisco pediu desculpas por dar um "mau exemplo".

Na quinta-feira, 1 de janeiro, depois de as imagens circularem online, algumas pessoas nas redes sociais questionavam como pode este incidente ter acontecido. "Ele tem literalmente um exército para protegê-lo e tem que se libertar com as suas próprias palmadas?" perguntava um utilizador no Twitter. Outro comentava: "O papa tem um procolo de segurança muito frouxo".

O departamento de segurança do Vaticano recusou comentar o incidente, mas um especialista em segurança ouvido pela agência italiana de notícias AGI, e citado pela AFP, considera que os guarda-costas deveriam ter atuado antes. "É a equipa de segurança do papa que deve pedir desculpa", disse o fundador da unidade de intervenção policial de elite de Itália, cuja identidade é protegida, mas que é denominado por Comandante Alfa.

"A senhora não largou a mão do papa e ele foi forçado a dar uma palmada na mão dela para se libertar. Não deveria ter chegado a esse ponto."

Estilo pessoal de Francisco cria dificuldades

Mas o estilo do primeiro papa latino-americano da história, muito menos reservado do que o antecessor alemão Bento XVI, é uma dor de cabeça para a segurança do Vaticano.

Francisco aperta mãos, abraça fiéis e não hesita sequer em provar as bebidas que lhe são entregues. A sua missa inaugural na Praça São Pedro, em 19 de março de 2013, foi o começo de um pesadelo para os agentes de segurança, perante a espontaneidade do ex-arcebispo de Buenos Aires, que gostava de utilizar o metro para visitar os seus seguidores.

Para Francisco, que defende uma Igreja transformada em "hospital de campanha", está fora de questão afastar as pessoas comuns atrás de cordões de segurança.

"É preciso respeitar o estilo pessoal de cada papa. Os oficiais de segurança sabem que não cabe a eles decidir isso", comentou o seu porta-voz naquela época, padre Federico Lombardi.

Depois de quase sete anos de pontificado, o papa conheceu agora o outro lado da moeda. "Muitas vezes perdemos a paciência. Isso acontece comigo também", admitiu Francisco no dia seguinte ao incidente, durante a mensagem de Ano Novo, enquanto as imagens da cena circulavam pelo mundo.

Já em fevereiro de 2016, durante uma missa num estádio no México, o papa tinha ficado irritado com um devoto excessivamente entusiasmado que o fez cair sobre uma criança em cadeira de rodas.

O atentado contra João Paulo II

Na Praça de São Pedro, a polícia italiana ajuda os guardas suíços do Vaticano, muitas vezes com roupas civis. Mas todos devem cumprir o desejo do papa Francisco em ter liberdade de movimentos.

Uma unidade de guarda-costas do Vaticano segue constantemente o papa, inclusive no exterior. São os agentes que normalmente são vistos a correr ao lado do carro do papa. Ultratreinados, precisam mesmo assim de se adaptar ao inesperado. Como aconteceu agora. Ou em janeiro de 2018, quando o papa fez parar o comboio que o transportava pela cidade de Iquique, no norte do Chile, para ajudar uma policial que acabara de cair do cavalo.

A segurança papal tornou-se uma prioridade no Vaticano após a tentativa de assassinato do papa João Paulo II, em 1981, pelo turco Mehmet Ali Agca, na Praça de São Pedro. O reforço das medidas de segurança que se seguiu incluíu tornar o Papamóvel à prova de balas e adicionar detetores de metal ao entrar na praça.

No entanto, Francisco disse em 2014 que preferia não usar o Papamóvel à prova de balas, comparando-o a uma "lata de sardinha".

Mas nem só as ameaças de atentados representam riscos de segurança. Fiéis demasiado entusiasmados também o podem ser. Em 2009, antes da missa de véspera de Natal do então papa Bento XVI, uma mulher que depois disse que queria dar um abraço no pontífice saltou uma barricada e agarrou as suas vestes, fazendo o papa, de 82 anos, cair ao chão. Bento não ficou ferido, mas um cardeal francês partiu a perna na confusão.

Agora, foi Francisco a experimentar o excesso de devoção de uma mulher, que voltou a levantar interrogações sobre a segurança em torno do papa.

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