O imã de Ripoll pode ser o cérebro da célula terrorista da Catalunha

Terroristas planeavam atacar com explosivos no dia em que atropelaram dezenas nas Ramblas. Paradeiro do imã é desconhecido

Não tinha antecedentes de terrorismo, apesar de já ter estado preso. Era reservado, misterioso e não é visto desde o início de junho, precisamente a altura em que os restantes membros da célula terrorista que levou a cabo os ataques na Catalunha recolheu à casa abandonada em Alcanar, no Sul da Catalunha, para preparar os explosivos a usar nos atentados. Abdelbaki Es Satty, o imã de Ripoll, terá cerca de 40 anos e fazia esforços por não se destacar: não se integrou na comunidade muçulmana local, escreve o El País, citando os vizinhos de Ripoll, uma localidade rural com 10 mil habitantes e onde toda a gente se conhece.

Mas, de Es Satty, ninguém sabe muito. Dava aulas de árabe a crianças e nunca, nas suas orações, deixou perceber que fosse próximo do salafismo, o islamismo ultraconservador. Saiu da prisão em 2012, tendo sido detido por infrações à legislação relativa a estrangeiros e imigração. Na cadeia, relacionou-se com alguns dos detidos pelos atentados de 11 de março de 2004, em Madrid.

Conta o El País que, ainda no sábado, os Mossos d'Esquadra fizeram buscas na casa onde se alojara em Ripoll, em busca de provas e ADN. Até ao momento, desconhece-se se o corpo do imã estará entre os escombros da casa de Alcanar, que explodiu na véspera do duplo atentado na Catalunha, e onde a célula terrorista estaria a preparar um ataque mais ambicioso: a polícia removeu do local cerca de 120 bilhas de gás que deveriam ser usadas em "um ou mais" ataques em Barcelona.

Já este domingo, a polícia catalã assumiu que está a investigar o processo de radicalização dos jovens de origem marroquina que, de acordo com as últimas investigações, constituiriam esta célula de 12 elementos. Quatro estão detidos, cinco foram abatidos em Cambrils e desconhece-se o paradeiro de três pessoas, entre as quais Younes Abouyaaqoub, o alegado condutor do veículo que atacou nas Ramblas. Os outros dois elementos - entre os quais estará o imã - poderão estar mortos, na sequência da explosão de Alcanar, mas a polícia ainda não determinou quantas pessoas morreram ao todo naquela ocasião, devido à dificuldade de encontrar vestígios biológicos nos escombros que ficaram.

Em casa do imã, que estava em Ripoll desde 2015, vivia também um marroquino que subalugava um quarto a Es Satty. Disse à polícia que falara com ele pela última vez na terça-feira e que o imã lhe havia dito que estava a pensar regressar a Marrocos, onde tinha deixado vários filhos. Também por várias vezes Abdelbaki Es Satty já deixara Espanha para viajar para a Bélgica - onde nos últimos anos têm sido desmanteladas várias células de radicais - e mostrara recentemente vontade de voltar.

Este domingo, em conferência de imprensa, o chefe da polícia catalã explicou que foi a preparação dos artefactos para realizar os atentados que provocou a explosão em Alcanar, revelando que os 'jihadistas' tinham intenção de atacar em Barcelona com explosivos também na quinta-feira, dia em que acabaram por concretizar o atropelamento nas Ramblas. Josep Lluís Trapero explicou que os atentados das Ramblas e Cambrils terão sido uma resposta espontânea, uma vez frustrado o atentado com explosivos.

O mesmo responsável admitiu que a polícia está a trabalhar sobre a hipótese de a célula ter 12 membros, mas o número poderá ser mais amplo, dado o número de veículos utilizados. Muitos destes automóveis coincidiram durante mais de seis meses na casa de Alcanar, mas nunca levantaram suspeitas.

Trapero revelou ainda que o imã de Ripoll tinha sido investigado em 2011 pela relação com outro homem que estava sob investigação no âmbito dos atentados de 2004 em Madrid, mas não foi detido nem acusado de qualquer delito.

A polícia federal suíça confirmou entretanto ao El País que um dos membros da célula esteve em Zurique no final do ano passado, sem adiantar nomes. Mas, de acordo com o jornal, poderão ter sido dois os terroristas da Catalunha que estiveram em solo helvético, Yousseff Aalla e Mohamed Hichamy. O último foi detido, e o paradeiro de Aalaa é desconhecido - estará provavelmente sob os escombros de Alcanar.

Já em relação ao imã, que poderá ter tido um papel chave no recrutamento dos jovens marroquinos que viviam em Ripoll, só existe uma certeza: há cerca de dois meses e meio que deixara de exercer e não era visto. Assinala o El País que, caso o corpo de Es Satty seja encontrado na casa de Alcanar, poderá ficar explicada a ação dos jovens, que perderam o cérebro da operação na manipulação de explosivos e, sem nada a perder, decidiram fazer-se à estrada com o único propósito de matar.

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