Igreja atacada estava quase vazia porque "as mães portuguesas foram de férias"

Três freiras que testemunharam ataque terrorista de terça-feira a uma igreja de Saint-Étienne-du-Rouvray, na Normandia, contaram agora mais pormenores ao site cristão LaVie.fr

A tragédia de terça-feira de manhã em Saint-Étienne-du-Rouvray só não foi maior porque havia pouca gente na missa: três freiras, dois fiéis já de idade e um padre, Jacques Hamel, de 84 anos, que acabou degolado por dois terroristas de nacionalidade francesa e aliados do Estado Islâmico. As irmãs Danielle Delafosse, Hélène Decaux e Huguette Péron têm uma explicação para isso: "As mães portuguesas foram de férias", contaram ao La Vie.fr, site de informação cristão em francês.

Em entrevista exclusiva, Danielle, a freira que fugiu, avisando depois as autoridades daquela localidade da Normandia, conta que os dois terroristas obrigaram o padre a ajoelhar-se e puseram uma câmara de filmar nas mãos do fiel, identificado como Senhor C. "Jacques gritou-lhes: Parem, o que é que pensam que estão a fazer? Foi então que um deles lhe deu o primeiro golpe na garganta e eu fugi", contou a religiosa, sem saber explicar muito bem o seu reflexo.

"Tinham o estilo de terroristas que vemos na televisão. Um tinha um boné preto na cabeça e a barba bastante grande. Percebi logo", contou, por seu lado, Hélène, que permaneceu refém dentro da igreja com a outra irmã e os dois fiéis. "Gritaram uma série de slogans em árabe e depois dirigiram-se a nós em francês para dizer que os cristãos não apoiam os árabes", recordou, por sua vez, a irmã Huguette, a quem um dos terroristas abordara mais cedo para perguntar a que horas abria a igreja. Ela respondeu: "Dentro de dez minutos".

A mãe de José Gonçalves, um luso-francês de 45 anos, era presença assídua na missa. "Ela está de férias em Portugal desde domingo, se não tinha ido à missa", disse ontem por telefone ao DN, a partir de Saint-Étienne-du-Rouvray. "Esta é a minha paróquia. Mas não costumo ir à missa de semana, só vou aos domingos. Conhecia o padre Jacques Hamel. Era muito simples, acolhia toda a gente. Apesar de não falar português, celebrava com os portugueses ocasiões como o 13 de maio ou o 13 de outubro", conta, explicando que entre emigrantes e descentes deve haver mil a duas mil pessoas de origem portuguesa naquela localidade. Após o choque, a tristeza e a emoção iniciais, surge agora o cansaço na população. "Começamos a pensar como vamos seguir em frente".

Também a mãe de François Pereira frequentava a igreja atacada. Naquele dia não foi à missa, não por ter ido de férias, mas porque optara por ir ao cemitério visitar o túmulo de outro filho, recordou à RFI o luso-francês, revelando que um dos terroristas foi colega de turma do seu filho e que ainda tem uma fotografia que o inclui. Também o padre Jacques Hamel era seu conhecido, "boa pessoa" com o hábito de cumprimentar toda a gente e que celebrara inclusivamente o funeral do seu irmão.

Francisco Barros, um emigrante português igualmente citado pela rádio francesa RFI, também conhecia o sacerdote que naquele dia dava a missa porque o padre

Auguste Moanda-Phuati, que é de origem congolesa, se encontrava na altura de férias. Era "um senhor idoso muito simpático", testemunhou Francisco Barros.

Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, Danielle, Hélène e Huguette relataram na entrevista exclusiva ontem publicada que apesar de enervados e agressivos, os dois jovens mudaram de atitude ao longo do sequestro. "Um sorriu-me, com ar feliz, não com ar de triunfo", disse Huguette, enquanto Hélène recordou ter pedido para se sentar e ele ter deixado. "Pedi a minha bengala e deu-ma". Antigas educadora de infância, professora de liceu e enfermeira, as irmãs sublinham que os terroristas "não são verdadeiros muçulmanos". Questionadas sobre como vão viver daqui em diante depois do que viram, fazem questão de lembrar que "2016 é o ano da misericórdia".

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