Iglesias e Rivera usam convite de Rajoy para fazer campanha

Líderes do Podemos e do Ciudadanos foram à Moncloa para discutir situação catalã

Os dirigentes dos quatro principais partidos espanhóis concordam que não devem usar a Catalunha e o processo independentista como uma arma eleitoral. Mas isso não significa que os líderes do Podemos e do Ciudadanos, formações políticas que ameaçam o bipartidarismo em Espanha, não aproveitem a oportunidade de discutir a situação catalã no Palácio da Moncloa com o primeiro-ministro Mariano Rajoy para fazer campanha.

"Não estamos de acordo em quase nada", indicou o secretário-geral do Podemos, Pablo Iglesias, na conferência de imprensa posterior ao encontro com Rajoy. O primeiro-ministro admitiu depois que foi com ele que teve mais diferenças, mas não considerou ter "perdido nada" com o encontro. Iglesias fez questão de "puxar as orelhas" a Rajoy, lembrando que "em democracia o que faz sentido é reunirmo-nos com quem não estamos de acordo". Inicialmente, e após receber o líder do PSOE, Pedro Sánchez, Rajoy só tinha previsto um encontro com o dirigente do Ciudadanos, Albert Rivera, que também é contra um referendo. Segundo Iglesias, revelou dessa forma quem considera ser "o seu adversário político".

Recordando que é contra a independência mas defende que os catalães devem ter direito a decidir o futuro, Iglesias explicou que "a Catalunha é um desafio, mas não é o único" que a Espanha enfrenta. E explicou que apresentou ao primeiro-ministro os cinco acordos constitucionais para um novo país que são a base do programa do Podemos. Assim defendeu a reforma da lei eleitoral, para que o voto de todos seja igual, e a reforma da justiça, para garantir a independência dos juízes. Também quer blindar constitucionalmente os direitos sociais e o emprego justo, que se castigue a corrupção e finalmente que haja um acordo territorial, tendo em conta o direito a decidir.

Quanto à Catalunha, Iglesias acusou Partido Popular, PSOE e Ciudadanos de apostar numa fórmula "de confronto" que "não funcionou". Na sua opinião, estes partidos estão a encerrar-se num bunker e a aposta do Podemos é no diálogo. Para o primeiro encontro com Rajoy, Iglesias não foi de mãos vazias e ofereceu ao primeiro-ministro (que o foi buscar à entrada do palácio) o livro Juan de Mairena, de Antonio Machado. Na dedicatória ao "Estimado Mariano" citava o autor: "Para dialogar pergunta primeiro, depois escuta."

Pacto por Espanha

Horas antes de receber Iglesias, o primeiro-ministro tinha-se reunido com Albert Rivera. "É preciso assinar um pacto por Espanha para que todos saibam que, governe quem governar a partir de 20 de dezembro, seja qual for a maioria que surja nas urnas, este país não está em jogo, não se rompe e não se negoceia", afirmou o líder do Ciudadanos, após o encontro com Rajoy. O chefe do governo explicou que se sente apoiado pelos líderes partidários para liderar a resposta ao independentismo sem ter que assinar pactos, pedindo que não se entre em "debates estéreis".

O plano do Ciudadanos, principal força de oposição na Catalunha que está a subir nas sondagens em Espanha, está baseado em cinco pontos. Primeiro, "não se debate nem se toca" no artigo 1.º da Constituição, que diz que "a soberania reside no conjunto do povo espanhol". O segundo é a defesa da unidade territorial: a Espanha pode ser reformada, mas não dividida. Terceiro, não há "atalhos" para essa reforma, e a única maneira de a fazer é dentro do marco constitucional. O quarto ponto é um "firme compromisso" com a integração europeia. O último diz que todos os partidos que assinem o pacto não vão aceitar qualquer acordo de governo com os que querem dividir Espanha.

"Sou partidário de atuar com inteligência, eficácia e não gerando males piores dos que já temos em cima da mesa", afirmou Rivera. Na conferência de imprensa, fez questão em dizer que se põe "na pele" do primeiro-ministro e que "teria feito o mesmo" se tivesse no seu lugar - mostrando que também tem capacidade de chegar à Moncloa. Ao referir-se a Rajoy falava sempre do "atual primeiro-ministro", tentando mostrar que o fim está para breve.

O líder do Ciudadanos disse ter expressado o "firme apoio" do partido ao governo no cumprimento das leis democráticas. "A democracia não é negociável", referiu Rivera, que à tarde esteve com Pedro Sánchez. Uma sondagem do instituto DYM, divulgada ontem pelo jornal online El Confidencial, coloca o Ciudadanos como a segunda força política (20,3%), ultrapassando o PSOE (18,2%) e aproximando-se do PP (27%). O Podemos está em queda, com 13,8%. A margem de erro da sondagem, feita através de mil entrevistas telefónicas, é de 3,2 pontos.

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