Huthis lançam míssil contra Riade aos mil dias de guerra

Míssil balístico tinha como alvo palácio do rei saudita. Nos últimos dias os ataques da aviação árabe mataram mais de 130 iemenitas

"O palácio do regime saudo-americano-sionista e todas as instalações militares e petrolíferas estão ao alcance dos nossos mísseis", ameaçaram ontem os huthis através da conta de Twitter do canal de TV Al-Masirah. A mensagem surgiu após uma forte explosão sentida no nordeste de Riade, ontem de manhã. O movimento rebelde do Iémen informou que o alvo do míssil balístico Burkan H-2 era o palácio Yamama, a residência oficial do rei Salman.

Por sua vez, o porta-voz da coligação militar liderada pela Arábia Saudita, Turki al-Malki, explicou que o míssil foi "intercetado e destruído" sem ter causado vítimas. A explosão ocorreu pouco antes do anúncio do orçamento do reino para 2018 numa conferência de imprensa do rei Salman com a presença de vários ministros.

O ataque dos huthis deu-se, segundo os próprios, em resposta aos mil dias da intervenção da coligação árabe no Iémen. Foi o terceiro míssil disparado pelos rebeldes iemenitas sobre a Arábia Saudita em dois meses - e todos foram intercetados pelo sistema antimíssil norte-americano Patriot. O primeiro, em 4 de novembro, e igualmente sobre Riade, tinha como alvo o aeroporto. No dia 30 de novembro, os sauditas neutralizaram um míssil junto à cidade de Khamis Mushait.

Perante o ataque de 4 de novembro, a coligação reforçou o bloqueio imposto ao Iémen, à beira da fome generalizada. Originários da minoria zaidita, uma ramificação dos xiitas, os huthis são um grupo religioso que se transformou em milícia armada já no século XXI. Foram parte integrante da revolução de 2011 e em 2015, com o ex-presidente Saleh - morto recentemente -, chegaram ao poder no norte do país. O líder dos rebeldes, Abdul Malik al-Huthi, culpou EUA, Israel e os Estados árabes vizinhos pelos ataques terroristas que ocorreram então. Em resposta formou-se uma coligação liderada pela vizinha Arábia Saudita, que iniciou uma intervenção militar de apoio ao governo de Saná. Desde então o conflito causou cerca de dez mil mortos, dois milhões de deslocados e um bloqueio que deixa 17 milhões com problemas de nutrição, das quais sete milhões à beira da fome.

Este é também um caso de conflito por procuração. Riade e o aliado norte-americano acusam o Irão de fornecer armamento aos rebeldes. Na quinta-feira, a diplomata norte-americana junto da ONU, Nikki Haley, apresentou "provas irrefutáveis" de venda de mísseis fabricados pelo Irão, o que seria uma "violação flagrante" das suas obrigações internacionais. Teerão, que não esconde o apoio aos iemenitas rebeldes, desmentiu ser o fornecedor de armas de Saná.

O que os huthis não têm é um sistema antiaéreo. Pelo menos 136 civis foram mortos no Iémen em dez dias de ataques aéreos da coligação. "Estamos profundamente preocupados com o recente aumento do número de civis mortos ou feridos no Iémen devido aos ataques aéreos realizados pela coligação dirigida pela Arábia Saudita, após a morte do ex-presidente Ali Abdallah Saleh a 4 de dezembro", declarou o porta-voz do Alto-Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, Rupert Colville.

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