Historiador defende investigação às "pensões de Hitler"

Christoph Brüll defende uma investigação profunda para perceber quem e quando foram requisitadas as mais de duas mil "pensões de Hitler", que continuam a ser pagas pelo Estado alemão em vários países do mundo.

De acordo com dados avançados pelo Ministério do Trabalho e Assuntos Sociais da Alemanha, 2.033 pessoas estão a usufruir deste benefício, em cerca de 50 países do mundo, e que pode chegar a um valor mensal de 1.300 euros.

O historiador da Universidade do Luxemburgo, Christoph Brüll, em declarações à agência Lusa, esclarece que "não é uma pensão, mas sim uma compensação" que se baseia numa lei de 1950 que está "em constante evolução desde então".

"Esta lei permite que todas as pessoas que foram feridas por uma ação militar durante a Segunda Guerra Mundial peçam uma compensação se tiverem uma deficiência de 25%, pelo menos. Em 1997, o parlamento alemão acrescentou uma cláusula exclusiva: aquelas pessoas que foram condenadas por crimes de guerra podem perder a compensação que já têm ou estão impedidas de a solicitar", esclarece.

Segundo o embaixador alemão na Bélgica, Rüdiger Lüdeking, todos os casos foram reconsiderados retrospetivamente pelas administrações germânicas para que nenhum condenado pela justiça tivesse direito a este benefício económico.

A polémica começou a 20 de fevereiro, na Bélgica, depois de aprovada a proposta do presidente do partido centrista Défi, para rescindir o pagamento de reformas de invalidez a cerca de duas dezenas de veteranos da Segunda Guerra Mundial, que alegadamente colaboraram entre 1939 e 1945 com a Alemanha.

No documento, aprovado pelo parlamento belga, pode ler-se que o pagamento de pensões "por colaboração com um dos regimes mais assassinos da história, está contra a memória coletiva" e contra os valores da União Europeia.

As compensações, que podem também ser cobradas por herdeiros, podem envolver cerca de 80 mil cidadãos, segundo o jornal Le Monde, mas o governo da Alemanha recusa-se a avançar quantas pessoas já terão recebido este benefício.

Para Christoph Brüll é "bastante normal", do ponto de vista alemão, que "haja uma lei que indemnize as vítimas e os veteranos de guerra que sofrem de uma deficiência, e não tenham cometido crimes de guerra". O que é "crucial", frisa o perito em questões belgo-alemãs, é perceber "como é que as pessoas de outros países europeus se familiarizam com este tipo de compensação".

Brüll explica que, no caso belga, sabe-se que um deputado flamengo ajudou várias pessoas a obterem compensações nos anos 1970. "É bastante claro que os cidadãos em questão tinham sido condenados por colaboração militar (e às vezes política) pelos tribunais militares belgas durante a 'épuration légale'[julgamentos levados a cabo depois da Libertação de França] após 1945", admite o investigador.

"O grande problema é que obviamente eles consideram-se vítimas, enquanto as vítimas reais da guerra (judeus, trabalhadores forçados, deportados (...) esperaram muito mais para obter compensações que podem ser financeiramente menos importantes do que aquelas pagas a antigos colaboradores", explica Christoph Brüll.

"Como historiador, gostaria de ver uma pesquisa sobre as circunstâncias de atribuição das compensações nos países europeus, perceber quem as pediu, quando. Espero que a clarificação dos factos possa por fim aos debates em torno desta questão", remata o professor do departamento de história contemporânea da Universidade do Luxemburgo.

Na lista dos beneficiários desta compensação estão, entre outros, a Polónia, com 573 casos, seguindo-se a Bélgica, com 373 e os Estados Unidos, com 250.

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