Hillary deverá continuar até ao fim. Especialistas rejeitam outro cenário

Politólogos norte-americanos ouvidos pelo DN desvalorizam o episódio da pneumonia e não acreditam que tenha consequências eleitorais. No improvável cenário de desistência, haveria convenção especial para escolher o substituto

Os próximos dias serão determinantes para perceber se a pneumonia de Hillary Clinton ficará na história apenas como uma nota de rodapé ou se poderá transformar-se num momento definidor da corrida presidencial.

"Os problemas de Hillary tornaram-se numa questão nacional. Até agora este era um tema no qual a imprensa mainstream não se atrevia a tocar, mas agora é impossível dizer que a saúde da candidata democrata não é uma causa de preocupação para muitos eleitores", sublinha ao DN Max Abrahms, professor de Ciência Política na Northeastern University.

O quase-desmaio da candidata democrata no domingo, durante as cerimónias do 11 de setembro, trouxe o assunto para as páginas dos jornais. Em agosto, o ex-mayor de Nova Iorque, Rudy Giuliani, assumido apoiante de Donald Trump, chegou a dizer numa entrevista à CNN que tudo o que os eleitores precisavam de fazer era introduzir no Google a pesquisa "doença de Hillary Clinton".

Os últimos acontecimentos vieram alimentar ainda mais a teoria da conspiração segundo a qual Hillary poderá sofrer de problemas de saúde graves, nomeadamente relacionados com questões neurológicas. Ontem, o staff da candidata fez mea culpa por se ter atrasado a revelar que se tratava de uma pneumonia e garantiu que esta semana irá divulgar um detalhado relatório médico sobre a saúde da ex-primeira dama dos EUA.

Poderá este episódio ter consequências eleitorais? "Não desde que seja esclarecido rapidamente", acredita Luís Bernardo, ex-assessor dos primeiros-ministros António Guterres e José Sócrates e responsável por várias campanhas do Partido Socialista. "É preciso destruir todas as suspeitas de que possa tratar-se de algo mais grave. Esta deve ser a estratégia de defesa num primeiro momento", explica o especialista em comunicação. Numa fase seguinte, Luís Bernardo contra-atacaria. "Pelos meios não oficiais, como as redes sociais, faria passar a seguinte mensagem: "Hillary tem cura. E Trump?"", acrescenta o agora diretor de comunicação do SL Benfica.

Outros especialistas norte-americanos ouvidos pelo DN não acreditam que o episódio venha a ter consequências eleitorais para a candidata democrata.

"Desde que a pneumonia se resolva com antibióticos e ela retome a sua agenda não terá impacto. Aliás, assumindo que se encontra bem de saúde, este caso até acaba por ser vantajoso porque estamos centrados neste tema em vez de estarmos a falar do caso dos e-mails, ou do facto de ter dito que metade dos eleitores de Trump são deploráveis", defende Marc Joseph Hetherington, politólogo da Universidade de Vanderbilt.

A opinião de Daniel Aldrich, também professor de Ciência Política, vai no mesmo sentido. "A pneumonia afetou vários membros da sua equipa. Os eleitores que já decidiram votar nela não vão alterar o sentido de voto. E aqueles que não gostavam de Hillary vão juntar este episódio à lista de razões para escolher Trump", sublinha o investigador que colabora regularmente com o The New York Times e com a CNN. "A maior parte de nós não usa novas informações para alterar a opinião que já temos", acrescenta.

Robert Gilbert, cientista político e autor de um estudo sobre doenças do foro psicológico que afetaram diversos presidentes norte-americanos, desvaloriza o caso. "Tudo o que existe são rumores. Não há qualquer evidência de problemas sérios de saúde no caso de Hillary. Acabou de sair de uma difícil batalha contra Bernie Sanders e agora está a fazer uma vigorosa campanha contra Trump, sem quaisquer sinais de quebra de energia". Gilbert defende, no entanto, que todos os candidatos a presidente e a vice-presidente deveriam apresentar atestados médicos garantindo que estão aptos para desempenhar as funções durante os quatro anos seguintes.

Entre os politólogos ouvidos pelo DN, que tendem a menorizar o caso, a única voz discordante é a de Max Abrahms. "Não espero transparência da parte de Hillary. Tenho a certeza de que os médicos irão continuar a assegurar que ela está bem, apesar dos sinais em sentido contrário", afirma o professor de Ciência Política.

E se Hillary saísse da corrida?

Pela informação disponível neste momento, nada aponta para que a candidata venha a ser obrigada a retirar-se da corrida por questões de saúde. "É um cenário muito improvável. Há várias décadas que está na política e durante a sua carreira ultrapassou outros momentos complicados", defende Aldrich. "Não quero especular sobre o assunto porque não há qualquer sinal que aponte para algo mais grave do que pneumonia", diz Hetherington.

Se o improvável acontecesse estaríamos a entrar em território desconhecido. "Um candidato desistir da corrida seria algo sem precedentes. Não há uma resposta óbvia para o que se passaria a seguir", resume Hetherington.

Segundo Aldrich "haveria uma convenção de emergência para encontrar um substituto". Sanders, adversário de Hillary nas primárias, e Joe Biden, atual vice-presidente dos EUA, seriam os nomes mais ventilados para ocupar a vaga, de acordo com o The Telegraph. Tim Kaime, candidato a vice de Hillary, continuaria no lugar de número dois.

Max Abrahms simplifica a resposta: "Não vejo que valha a pena discutir essa hipótese, porque ela não vai acontecer. Mas, nesse caso, o mais provável é que Trump viesse a ser o próximo presidente".

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