Hernández tenta ser o primeiro presidente reeleito das Honduras

Mudança constitucional para permitir a reeleição foi motivo para um golpe há oito anos, mas hoje o atual chefe de Estado é favorito num escrutínio no qual não há segunda volta

Na madrugada de 28 de junho de 2009, o exército das Honduras arrancou o presidente Manuel Zelaya ainda de pijama da sua casa e meteu-o num avião para a Costa Rica. O golpe de Estado foi desencadeado pelo seu próprio Partido Liberal, com o apoio da igreja e dos empresários, contra a consulta popular que ele queria fazer para mudar a Constituição e permitir a reeleição - segundo os críticos que o acusavam de aproximação ao socialismo do século XXI do venezuelano Hugo Chávez. Oito anos depois, o presidente Juan Orlando Hernández procura precisamente ser reeleito. E, segundo as sondagens, deverá conseguir.

Aquilo que há oito anos foi motivo de golpe, tornou-se possível depois de, em 2015, o ex-presidente Rafael Callejas (1990-1994) ter alegado no Supremo Tribunal que a limitação de mandatos representava uma violação dos seus direitos humanos. Em abril, os juízes decidiram a seu favor, revogando o artigo 239 da Constituição de 1982.

A decisão acabou por beneficiar Hernández, do Partido Nacional, que chegou à presidência em 2014 com a promessa de melhorar a economia e lutar contra a violência. Com 8,6 milhões de habitantes, as Honduras são um dos países mais pobres da América Latina: 63,8% dos lares são pobres. Durante o seu mandato, recebeu nota positiva dos organismos internacionais em matéria económica, conseguindo um crescimento do PIB de 3,6% em 2015 e 2016. A nível de segurança, o país passou de uma taxa de homicídios de 90,4 por 100 mil habitantes em 2012 (uma média de 20 homicídios por dia, o valor mais elevado da sua história), para 42 homicídios por 100 mil habitantes. Apesar disso, duas cidades das Honduras continuam na lista das dez mais violentas do mundo.

As sondagens colocam Hernández - que estudou nos EUA e tem uma relação próxima com John Kelly, o chefe de gabinete de Donald Trump - a mais de 15 pontos percentuais do principal adversário, Salvador Nasralla. O líder do Partido Anticorrupção, que foi quarto nas eleições de novembro de 2013, concorre desta vez pela Aliança Opositora contra a Ditadura. Esta inclui o Livre, do ex-presidente Manuel Zelaya (que foi autorizado a regressar às Honduras, após prometer que não seria candidato), e o Partido Inovação e Unidade. Em terceiro lugar nas sondagens surge Luis Zelaya (que não tem qualquer ligação de parentesco ao ex-presidente), do Partido Liberal, que tem alternado no poder com o Partido Liberal.

No total, são novas as candidaturas, mas uma vez que não existe segunda volta nas Honduras, a vitória do presidente parece quase certa com a diferença de dois dígitos nas sondagens. Mas Nasralla quer estragar os planos de Hernández, depois de ter ganho as primárias dentro da aliança opositora a Xiomara Castro. A mulher de Manuel Zelaya ficou em segundo nas presidenciais de 2013, depois de ter liderado as sondagens pré-eleitorais, com os seus apoiantes a alegar que houve fraude na vitória de Hernández. A oposição diz que esta nova candidatura do presidente é ilegal, apelida-o de ditador e diz que prepara uma nova fraude.

Uma vez que os três juízes do Supremo Tribunal Eleitoral são considerados próximos do partido no poder, os dois principais candidatos da oposição dizem que só vão reconhecer os resultados com base na contagem manual dos votos - e não no sistema eletrónico. O investigador Víctor Meza, do Centro de Documentação das Honduras, disse à AFP que dado "o clima de crispação", existe uma "mistura explosiva que pode gerar manifestações violentas". Mais de 500 observadores internacionais estão no terreno: a missão de acompanhamento da União Europeia é liderada pela eurodeputada Marisa Matias (Bloco de Esquerda), enquanto a de observação do Parlamento Europeu por José Inácio Faria (Partido da Terra).

No total, cerca de seis milhões de hondurenhos estão registados para votar nas eleições em que, além do presidente e dos três vice-presidentes, se elegem os 128 membros do Congresso, 20 membros do Congresso Panamericano, 298 presidentes da câmara e 2092 vereadores. Nas eleições de 2013, a abstenção rondou os 40%.

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