Há uma relação entre o preço do ouro e a morte de meninas na Índia

Por causa da tradição de os pais pagarem o dote às filhas, estudo conclui que o aumento do preço do ouro aumenta a mortalidade neonatal e o número de abortos dos bebés do sexo feminino em relação aos do sexo masculino

O preço do ouro tem uma relação direta com as hipóteses de sobrevivência das mulheres na Índia, influenciando o número de abortos de fetos do sexo feminino, a probabilidade de as bebés ultrapassarem um mês de vida e até a altura que atingem na idade adulta. A culpa é da tradição: o ouro (na forma de joias) é parte integrante dos dotes que os pais costumam pagar por ocasião do casamento das filhas. Uma tradição proibida desde 1961.

Num estudo assinado por Sonia Bhalotra (Universidade de Essex), Abhishek Chakravalrty (Universidade de Manchester) e Selim Gulesci (Universidade Bocconi) foram analisados os dados de mais de cem mil nascimentos e comparados com a variação do preço do ouro ao longo de 35 anos nos mercados internacionais. Apesar de não haver dados sobre o número de dotes pagos, as joias são parte integral destes pagamentos e a Índia importa 90% do seu ouro.

Entre 1972 e 1985, um aumento de 1% no preço do ouro terá causado um aumento anual de 13 mil mortes neonatais de meninas. "Nos meses em que o preço do ouro subiu, as hipóteses de sobrevivência de uma menina no período neonatal eram significativamente mais baixas do que as dos meninos." De facto, a inflação do preço do ouro estava relacionada com uma maior chance de sobrevivência para os meninos", escreveu uma das autoras do estudo, Sonia Bhalotra, num artigo publicado no blogue da Universidade de Essex.

Depois de 1985, com a introdução da tecnologia de ultrassons na Índia, que permitiam descobrir o sexo do feto, um aumento de 1% no preço do ouro causava o "desaparecimento" de mais 33 mil nascimentos femininos cada ano, escreve o The Guardian. Bhalotra já tinha concluído noutro estudo que após a introdução desta tecnologia, os pais passaram a abortar as filhas indesejadas em vez de as negligenciar após o nascimento. Agora conclui que um aumento de 2,6% do preço do ouro durante a gravidez era acompanhado por uma diminuição de 0,3 pontos percentuais na probabilidade de nascer uma rapariga em vez de um rapaz.

O impacto chega também na idade adulta. As mulheres que nasceram em meses nos quais os preços do ouro estavam elevados, eram também mais baixas na idade adulta - por haver uma privação nutricional nos primeiros anos de vida. Além disso, segundo dados publicado pelo India Times , em 2015, houve 7634 mortes (isto é, 21 por dia) ligadas ao assédio devido ao pagamento do dote. As famílias do noivo exigem, por exemplo, mais dinheiro e o caso pode levar ao suicídio das noivas ou ao seu assassinato.

O pagamento de dotes é proibido desde 1961 na Índia, mas continua a existir - e está a tornar-se mais comum no Bangladesh, Paquistão e Sri Lanka, indicam os autores. Inicialmente, destinavam-se a garantir que as filhas tinham proteção financeira no casamento, mas agora são muitas vezes apropriados pelo noivo ou os seus pais, acrescentam. Podendo representar seis vezes o rendimento anual de uma família, é normal os pais começarem a poupar para o dote logo após o nascimento das filhas - daí o impacto do preço do ouro na altura do nascimento.

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