Há quase um século que os nomes das mulheres desta família começam com M

Tudo começou por causa de um amor proibido com entre um branco rico, Balbino, e uma negra pobre, Maria do Patrocínio

Uma família brasileira mantém há quase um século a tradição de batizar todas as mulheres com nomes próprios iniciados pela letra M, fruto da então vontade de Expedito Manuel de querer honrar a mãe, Maria do Patrocínio.

Em Petrolina, segunda maior cidade do estado de Pernambuco, no Brasil, as mulheres da família Barbosa são quem tem a primeira e última palavra quando o tema é batizar as descendentes e já são 22 as que ostentam um nome que deriva da primeira dessa linhagem.

Para perceber as motivações, há que recuar até ao início do século XX e à cidade de Jutaí, em Pernambuco, onde um amor então proibido pela conjuntura - entre um branco rico, Balbino, e uma negra pobre, Maria do Patrocínio -, originou uma criança, Expedito Manoel e um fuga.

Em declarações à Lusa, a matriarca, Josefa Maria, com 80 anos, contou que esse "namoro escondido" motivou que a sua sogra "tivesse ocultado de quem era o filho", suportando "o zombar das pessoas e continuando a namorar com ele longe dos olhares de todos na esperança de poderem casar".

"Desprezada dentro e fora de casa, novamente grávida e ameaçada pelos pais de Balbino", a jovem fugiu para Salitre, na Baía, percorrendo os 150 quilómetros de jegue (burro) e passando a trabalhar na roça da irmã, ali criando os filhos, Expedito Manoel e Nina, a quem colocou como sobrenome apenas o seu, Barbosa.

"Quando engravidei a primeira vez, o meu esposo, Expedito Manoel disse-me que queria que fosse uma menina e que teria o nome Maria, em homenagem à sua lutadora mãe. Concordei e afeiçoei-me à letra M, pois era algo bem diferente na época".

Maria "por motivos religiosos", a matriarca foi mãe de três meninas e de um rapaz, a todos batizando com nomes iniciados pela letra M: Maria Goretti, Marlúcia, Marleidi e Marcos.

E se a denominação da primeira geração surgiu em respeito pela vontade do marido que, segundo Josefa Maria, "só quando já tinha capacidade para entender, ficou a saber da história do seu nascimento e fuga da mãe", a primeira das três filhas do casal que então se fixara em Petrolina, acrescentou "obrigação" ao seu esposo e ao das filhas na hora de dar nome aos descendentes.

Maria Goretti foi concludente quando questionada pela agência Lusa sobre se o pai das suas filhas tinha tido opinião: "Ele não teve hipótese de opinar, foi uma exigência", disse a responsável pelo nome das duas filhas (Mara Simone e Meire Alexsandra) e das três netas (Mayra Flávia, Mariana Mayumi e Marília Rebeca).

Marlúcia e Marleide tiveram uma postura menos radical, mas nem por isso menos bem-sucedida, dando ambas conta que seria "uma tristeza" e "uma falta de consideração" imaginar que as suas descendentes possam vir a fugir à tradição.

E se no caso da primeira, o marido "aceitou" sem se intrometer e até "gostou" dos nomes escolhidos para as filhas, já o esposo da segunda "só fez questão de participar na escolha do nome dos meninos". "Nas meninas, eu tinha livre acesso", sublinhou Marleide Barbosa.

Quase 90 anos passados sobre o início desta tradição, a família apresta-se este mês para receber mais uma menina, a 23ª da linhagem, filha de Michelly e neta de Marcos António - o quarto filho de Expedito Manoel e Josefa Maria -, e que será batizada com um nome que é um regresso ao início, Mari.

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