"Há privilégios e preconceitos" em ser filha do presidente

Empresária angolana falou dos desafios que enfrenta como mulher africana e das vantagens e desvantagens da sua origem

A empresária angolana Isabel dos Santos deu uma entrevista à BBC em que afirmou que ser filha do presidente de Angola José Eduardo dos Santos traz vantagens mas também "muito preconceito".

"Não há dúvida que há muito preconceito sobre isso, tenho um percurso inesperado", disse a presidente da Sonangol numa entrevista com o jornalista Paul Bakibinga. "Há privilégios e preconceitos".

"Sou privilegiada no sentido em que tive uma boa educação, no sentido em que pude ver o mundo, sou uma pessoa muito exposta, eu pude interagir com pessoas de todos os espetros da vida. E penso que é tudo", disse a empresária.

"Juntando isso com o preconceito e a sensação de que essas vantagens foram de alguma forma injustas ou obtidas através de favor e de favoritismo, acho que isso é preconceito", explicou.

Isabel dos Santos é filha mais velha do presidente angolano e, desde junho a presidente da petrolífera estatal por nomeação do pai. A empresária é a mulher mais rica de África e a sua fortuna, avaliada em 3,1 mil milhões de dólares pela edição de março da Forbes, é a nona maior do continente.

A nomeação de Isabel dos Santos gerou várias críticas no país e o Tribunal Supremo de Angola recebeu uma ação por parte de advogados angolanos sobre o caso. A justiça declarou a nomeação legal em dezembro.

A empresária contou que enfrenta ainda mais desafios por ser uma mulher, pela idade que tem e por ser africana. "Mas não é um problema angolano nem africano. Os problemas de género são globais e são comuns em todo o mundo", continuou dos Santos.

Ser uma mulher, ser nova, ser africana e ser negra são sem dúvida desafios

A empresária defendeu ainda que as raparigas devem ser ambiciosas e confiantes e lutar para cumprirem os seus objetivos. Isabel dos Santos diz que nas suas empresas são aplicadas políticas de igualdade de género para garantir que as mulheres recebem o mesmo salário, tratamento e avaliação que os homens.

Continuando no tema das mulheres, Isabel falou à BBC sobre a proposta do novo Código Penal angolano que prevê a criminalização do aborto. A empresária manifestou publicamente nas redes sociais que é contra esta medida e chamou-a de "criminalização das mulheres".

"Sinto que não devíamos deixar a religião influenciar as nossas leis", afirmou a empresária. "A lei, que foi agora adiada, na minha opinião, provavelmente não tinha em conta a realidade e as necessidades das mulheres".

Isabel dos Santos foi eleita uma das 100 mulheres de topo no mundo pela BBC em 2015 e foi comparada no mês passado a Ivanka Trump num artigo da mesma estação de televisão.

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