Há acordo mas ainda não há primeiro-ministro em Itália

Movimento 5 Estrelas e Liga Norte apresentaram programa. Berlusconi rejeitou proposta e ofereceu-se para ser chefe do governo

É um programa eurocético como os dois partidos que querem formar governo em Itália, que vira as costas à austeridade defendida por Bruxelas, mas não chega a pedir a saída do euro. Ao manifesto do Movimento 5 Estrelas (M5E), de Luigi Di Maio, vai buscar o rendimento mínimo garantido para os mais pobres, os temas ambientais ou novas tecnologias, enquanto da Liga Norte, de Matteo Salvini, retira as promessas de corte radical de impostos, assim como o foco na segurança e a retórica anti-imigração e anti-islão.

O "contrato de governo", com 30 pontos e quase 60 páginas, será ratificado pelos militantes de ambos os partidos. Os do M5E votavam ontem através da internet, seguindo os moldes de democracia participativa que têm sido habituais no partido. Os da Liga Norte serão chamados a pronunciar-se durante o fim de semana, em diversos locais espalhados pelo país. O objetivo é apresentar o programa ao presidente Sergio Mattarella na segunda-feira.

Falta contudo saber quem será o primeiro-ministro. "Não serei eu nem Di Maio. Estamos à procura de uma síntese", afirmou Salvini. Mas o líder do M5E não foi tão categórico: "Não sei se não serei o chefe do governo, mas será o nosso verdadeiro líder, o programa, que governará o país", indicou. O M5E foi o partido mais votado a 4 de março, com 32% dos votos, devendo ter mais peso na escolha do nome, já que a Liga não foi além dos 17% - apesar de estar a subir nas sondagens e assegurar representar os 37% de eleitores da coligação de direita, que incluía a Força Itália de Silvio Berlusconi.

O ex-primeiro-ministro rejeitou ontem o programa de governo apresentado e disse que Salvini "nunca falou em nome da coligação de centro-direita". Depois de um tribunal italiano ter levantado a sua proibição de ocupar cargos públicos, oferece-se agora para voltar a liderar o executivo. "Silvio Berlusconi, que tem nove anos de experiência no governo, que presidiu ao G7 e ao G8 três vezes, ficou recentemente disponível depois de ter sido reabilitado", indicou o político de 81 anos. "Não há candidato que se compare a Silvio Berlusconi", acrescentou, alegando que apesar de ter minoria apresentaria o programa da coligação de centro-direita no Parlamento para ver se conseguia ganhar o voto de confiança.

Contrato de governo

"A ação do governo visará um programa de redução da dívida pública não através de receitas baseadas nos impostos e na austeridade, políticas que não atingiram o seu objetivo, mas pela via do aumento do PIB através do relançamento da procura interna", lê-se no programa proposto pelos dois partidos. Mas os especialistas questionam como será possível financiar todas as medidas previstas - como a criação de um rendimento mínimo de 780 euros para os mais pobres ou de um salário mínimo - ao mesmo tempo que se corta nos impostos e na idade da reforma.

Para a União Europeia, este governo representa um desafio, mesmo que tenha havido um recuo na saída do euro. O acordo prevê a revisão "com os parceiros europeus" das regras económicas e fiscais, tendo voltado à ideia de "paz, fraternidade, cooperação e solidariedade". A nível da imigração, dá prioridade às expulsões dos imigrante ilegais e quer acelerar a avaliação dos pedidos de asilo. E estende os braços à Rússia, que não deve ser vista "como uma ameaça mas como um parceiro económico e comercial".

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