Guterres critica Europa por "caos" que gerou rejeição dos refugiados

O ex-primeiro-ministro português, que a 1 de janeiro toma posse como secretário-geral da ONU, recebeu o doutoramento 'honoris causa' em Madrid.

O próximo secretário-geral da ONU, o português António Guterres, afirmou ontem em Madrid a importância de estabelecer um diálogo efetivo com a nova administração norte-americana como "parceiro fundamental das Nações Unidas". Minutos antes de receber o doutoramento honoris causa pela Universidad Europea de Madrid, Guterres falou com a imprensa portuguesa e manifestou que a sua prioridade como secretário-geral da ONU será "investir na prevenção, na mediação e resolução dos conflitos para evitar as tragédias a que estamos a assistir no mundo de hoje". Ao mesmo tempo vai trabalhar para que "exista um aumento da nossa segurança coletiva".

O ex-primeiro-ministro português considera que a "ameaça do terrorismo é um ponto de união entre os membros da ONU" e se em alguma coisa falhou a comunidade internacional "foi em matéria de paz e segurança".

Antes de receber o grau académico, Guterres manteve um encontro com o presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy, "a quem pude agradecer o apoio muito importante de Espanha à minha candidatura a secretário-geral das Nações Unidas". Na reunião falou-se da colaboração "que seguramente Espanha irá prestar ao trabalho da ONU". Guterres considera que o país vizinho "tem tido um papel muito importante em diversos momentos na procura da paz".

Já sobre o presidente eleito dos EUA, Donald Trump, Guterres evitou comentários diretos. Porque "ainda não sou o secretário-geral da ONU". E limitou-se a lembrar que a sua intenção é "estabelecer um diálogo ativo com a administração norte-americana e procurar encontrar formas que permitam que a cooperação que existiu se mantenha da melhor forma possível".

O campus da Universidad Europea em Villaviciosa de Odón (Madrid) vestiu-se de gala para receber o diplomata português e conceder-lhe o título de doutor honoris causa pela forma como liderou durante dez anos o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. A sala da cerimónia acolheu os membros da reitoria da Universidade, do conselho de governo da instituição, convidados e muitos estudantes.

O ex-presidente do governo espanhol, o socialista Felipe González, foi o encarregado de pronunciar a Laudatio, o discurso de elogio ao homenageado. "É a primeira vez que faço isto", começou por dizer. Evitou o formalismo da cerimónia para falar do amigo António "porque nos conhecemos há 25 anos". Um homem que "tem a virtude dos fortes: a moderação com convicções firmes e inamovíveis".

Para González, tem sido a personalidade de Guterres a "definir o seu destino". Lembrou dele, enquanto primeiro-ministro de Portugal, o contributo para a Agenda de Lisboa que "evitou o choque assimétrico da união monetária com a fiscal" e desfez-se em elogios para falar da sua etapa à frente do ACNUR na defesa dos refugiados. No meio do discurso houve ainda tempo para uma alusão ao presidente eleito Donald Trump. "Não acredito que esteja disposto a acolher refugiados", sublinhou González. Acredita sim que a Europa precisa dos refugiados e afirmou que "o único impacto é o medo do outro, o mesmo que triunfou nas eleições dos EUA". E acabam por ser "os países menos ricos os mais flexíveis para acolher os refugiados". Para o socialista espanhol, Guterres "é um dos poucos bons candidatos" ao cargo de secretário-geral da ONU. E diz sentir ao mesmo tempo "alegria e tristeza" pelo amigo perante o seu novo desafio porque "a situação não é fácil".

Logo depois de receber o grau académico, António Guterres mostrou preocupação pela incapacidade da Europa em encontrar uma forma organizada e equilibrada de acolher os refugiados. "O caos criado, fruto da incapacidade europeia, ajudou a gerar a rejeição aos refugiados entre uma parte da opinião pública", sublinhou. "O mau exemplo começou na Europa e estendeu-se por todo o mundo." Por isso, considera importante "estabelecer um sistema internacional de integração que exige mais ajuda humanitária e mais prevenção".

O futuro secretário-geral da ONU lembrou que cresceu num mundo bipolar, onde havia a Guerra Fria com duas grandes potências (EUA e a URSS), de seguida o mundo passou a ser unipolar, com os americanos como potência global, e agora vive-se uma fase caótica. "A dúvida é saber se este caos é a nova ordem ou se estamos numa transição para uma nova ordem", disse Guterres.

Neste contexto, o português alertou para a necessidade de todas as sociedades aceitarem a "multiplicidade étnica" e deu o exemplo de Portugal e Espanha como dois países tolerantes que aceitam a "diversidade" e onde o "populismo xenófobo nunca teve uma manifestação própria". Motivo que "nos une e do qual devemos estar orgulhosos".

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