Guaidó regressa de forma triunfal e volta a gerar expectativas

Juan Guaidó regressou à Venezuela esta segunda-feira mas não foi preso pelo regime de Nicolás Maduro. Já em Caracas agradeceu aos embaixadores, entre os quais o de Portugal, que o receberam no aeroporto. Um sinal de debilidade do chavismo face à crescente contestação e apoio internacional à oposição ou de cálculo político?

Como se de uma estrela de cinema ou de rock se tratasse, Juan Guaidó, de 35 anos, foi recebido em apoteose no aeroporto internacional de Maiquetía - Simón Bolívar, em Caracas, capital da Venezuela. Eram 12.10. As 16.10 em Lisboa. Voando num avião comercial da Copa Airlines, proveniente da Cidade do Panamá, o líder da Assembleia Nacional da Venezuela e presidente interino reconhecido por mais de meia centena de países, Guaidó passou no controlo de imigração, saiu acenando aos apoiantes que gritavam "Sim, Nós Podemos, Sim, Nós, Podemos", falou aos media e saiu em direção à capital venezuelana, onde milhares de pessoas o esperavam, nas manifestações de apoio que convocara. Não foi preso.

Guaidó, que se proclamou presidente interino a 23 de janeiro, num claro desafio a Nicolás Maduro, arriscava-se a ser detido à chegada por ter desobedecido à proibição de sair do país, decidida pelo Supremo Tribunal de Justiça, órgão que a oposição venezuelana considera ilegal e acusa de só servir os interesses de Maduro. O líder da oposição saiu do país a 22 de fevereiro, um dia antes da tentativa de fazer entrar ajuda humanitária dos EUA para os venezuelanos através da Colômbia. O opositor de Nicolás Maduro esteve dez dias fora, em viagem pela Colômbia, Brasil, Paraguai, Argentina e Equador.

No Twitter, na conta oficial de Guaidó, iam sendo relatados todos os passos do presidente interino, colocadas mensagens ao povo. Em áudio. Em vídeo. Em texto. No aeroporto, à sua espera, estavam 13 embaixadores de países que o reconheceram como líder legítimo da transição. Entre eles o de Portugal Carlos Sousa Amaro. "Agradecemos aos embaixadores da Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Peru, Equador, EUA, Alemanha, Espanha, França, Holanda, Portugal e Roménia, que nos acompanharam na nossa chegada à Venezuela numa demonstração firme do compromisso do mundo para com a nossa democracia", diz uma mensagem, colocada na conta de Twitter do líder da Assembleia Nacional da Venezuela. Recorde-se que neste país latino-americano vivem cerca de 300 mil emigrantes e lusodescendentes.

No Twitter, na conta oficial de Maduro, iam sendo partilhados apelos aos festejos de Carnaval, sendo postadas imagens destinadas a mostrar o quanto os venezuelanos se estão a divertir num dia de Carnaval e de sol brilhante. "No Carnaval Feliz de 2019 o nosso povo desfruta de grandes expressões culturais, praias, parques e montanhas. A Venezuela está em Paz!", lê-se num dos tweets de Nicolás Maduro, que a 10 de janeiro tomou posse como presidente, renovando um mandato que não foi reconhecido pela oposição e foi contestado pela comunidade internacional. À sua espera, também no Twitter, Maduro tinha várias mensagens, sobretudo de líderes dos EUA, a avisá-lo para não fazer nada contra Guaidó.

"O regresso seguro à Venezuela de Guaidó é da máxima importância para os EUA. Qualquer ameaça, violência ou intimidação contra ele não será tolerada e terá uma resposta à altura. O mundo está a ver - o presidente interino da Venezuela deve poder regressar à Venezuela de forma segura", escreveu no Twitter, o vice-presidente dos EUA, Mike Pence. "O presidente Guaidó regressou de forma segura à Venezuela para continuar a lutar por um futuro democrático para o povo do seu país. Os EUA apoiam completamente Guaidó e a Assembleia Nacional. A sua segurança deve ser garantida. O mundo está a ver", afirmou, por seu, lado, na mesma rede social, o conselheiro de Segurança Nacional de Donald Trump, John Bolton.

Ex-embaixador dos EUA na ONU, Bolton ficou conhecido pelo seu papel na invasão do Iraque, no tempo de Saddam Hussein, sendo um defensor da doutrine Monroe para a Venezuela, ou seja, uma América Latina sob influência norte-americana. Em entrevista à CNN, Bolton disse que "nesta Administração não temos medo de usar as palavras Doutrina Monroe", sendo criticado por isso por Serguei Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, um dos países que apoiam Maduro. "A teoria e prática dos quintais é, de uma maneira geral, ultrajante. Suponho que os países da América Latina reagirão a essa declaração de John Bolton. Ele mencionou a Doutrina Monroe em relação à Venezuela, mas insultou toda a América Latina", declarou Lavrov, na segunda-feira, citado pela agência Sputnik.

Ao falar aos venezuelanos, em Caracas, Guaidó deixou uma palavra ao Exército. Não o criticando. Mas tomando-o como aliado. O presidente interino pediu aos militares que detenham os membros dos coletivos de defesa armada. Estes impediram, no dia 23 de fevereiro, que a ajuda humanitária norte-americana entrasse na Venezuela. "Exigimos justiça para o nosso povo. Ser cúmplice por omissão também é ser cúmplice. Basta de impunidade. Maduro não pode deter este povo corajoso que se mantém nas ruas. Apesar das ameaças e dos grupos armados. Há um ápice de medo? Não vai ser através de ameaças que nos vão deter", declarou o jovem líder, dirigindo-se aos militares para os instigar a mudar de lado: "A cadeia de comando está rota". Isto num altura em que, muitas chefias do Exército, ainda são leais a Maduro.

Na sua intervenção, Guaidó indicou que não vai abdicar da entrada da ajuda humanitária internacional para a Venezuela, tendo marcado uma reunião com os sindicatos para esta terça-feira para, frisou, "fazer um importante anúncio". E apelou a novas manifestações contra o regime no próximo sábado. "Não podemos permitir que a burocracia esteja sequestrada. Há que deixar sem maneiras de funcionar este regime que nos oprime. Qual governo de esquerda, quando não há liberdades sindicais, quando atacam os indígenas? (...) Isto não tem nada a ver com a esquerda, nem com a direita, simplesmente são uns assassinos que massacram o nosso povo". Uma hora antes de regressar a Caracas, o presidente interino deixou uma mensagem áudio no Twitter a apelar à resistência e à união entre os venezuelanos face a Maduro.

"Estamos mais fortes do que nunca, o usurpador que está em Miraflores vai querer reprimir-nos e desunir-nos, no seu desespero. Mas agora estamos muito mais fortes, mais unidos, mais dispostos a acabar com a opressão. Qualquer que seja o caminho a tomar pelo ditador, à minha chegada, vamos continuar. Há uma rota estabelecida. Acabar com a usurpação, governo e transição e eleições livres. Muitos caíram estes anos. Mas sempre levantámos a bandeira. Sempre seguimos em frente. Agora não será exceção", escreveu, o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela".

Segundo o correspondente do El País, Javier Lafuente, Guaidó voltou a entrar em Caracas "claramente com o aval de Maduro". Apesar de tudo sobre o que se pode esperar a seguir o mesmo jornalista do diário espanhol escreveu: "Guaidó regressou de forma triunfal, volta a gerar expectativas. Mas o cenário para ele também muda e exige movimentos rápidos. Dar como consumado que tê-lo deixado entrar é uma debilidade do chavismo e não parte de um cálculo político é aventurar-se muito". Num retweet esta segunda-feira postado na conta oficial de Maduro no Twitter está uma sondagem divulgada pela teleSur e que diz que 81% dos venezuelanos são a favor de um diálogo entre o governo e a oposição. Será este um sinal de que Maduro está disposto a dialogar? Negociar? A aceitar uma transição? Difícil de dizer.

"A sensação na diplomacia europeia é a de que o chavismo continua a ser uma caixa negra difícil de decifrar, do qual não se consegue tirar conclusões sobre divisões ou, inclusivamente, debates internos que estejam a acontecer. Várias pessoas que assistiram a reuniões recordam que em duas intervenções Maduro disse: 'Eu não sou Kadhafi nem Saddam, mas se me matarem vem outro a seguir que ainda vai ser mais radical"", escrevem Francesco Manetto e Javier Lafuente, no El Pais. Se, por um lado, Guaidó tem Estados Unidos, grande parte da América Latina e da Europa do seu lado, Maduro conta ainda com o apoio da Rússia, do Irão, da Turquia, da China, de Cuba e da Bolívia. E pelos vistos também de Angola.

"Obviamente que o Estado angolano não tem razões para deixar de reconhecer o governo da Venezuela. É um governo legítimo e eleito e é com ele que temos relações diplomáticas. No que diz respeito à crise na Venezuela, Angola pugna pelo diálogo e parece que é esta posição é a que vai prevalecer. Com as últimas informações, com os últimos sinais, tudo indica que não há outra saída se não o diálogo", afirmou o chefe da diplomacia angolana, Manuel Augusto, citado pela Lusa em Luanda. O ministro das Relações Exteriores angolano, que falava numa conferência de imprensa destinada a "lançar" a visita de Estado do Presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, salientou que o apelo ao diálogo é a "vocação" de Angola, "princípio" pelo qual Luanda conta com uma embaixada venezuelana e Caracas com um consulado angolano.

Nas mensagens que enviou, mas também em fotografias, Guaidó surgiu ao lado da sua mulher, Fabiana Rosales, com a qual tem uma filha, Miranda de dois anos de idade. O líder da Assembleia Nacional da Venezuela alertou nas suas últimas intervenções que se as autoridades do regime o "sequestrarem" esse "será o último erro que irão cometer". Jornalista, de 26 anos, disse já ter apanhado vários sustos desde que o marido se proclamou presidente a 23 de janeiro. Um deles foi quando um grupo das FAES foi à sua casa em Caracas perguntar pelo casal. A sua maior preocupação nesse dia, 31 de janeiro, era o facto de filha estar no local. Mas, como disse em entrevista ao El Nacional, isso deu-lhe ainda mais forças para continuar ao lado do marido na luta contra Maduro. "Só temo a Deus e só tenho medo de perder o foco. Mas ponho a minha mente positiva, porque isso move montanhas", declarou, na entrevista, datada de 4 de fevereiro. No dia do regresso à Venezuela, esta segunda-feira dia 4 de março, Fabiana Rosales voltou ao lado do marido.

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