Governo transforma Brasília em supermercado de cargos

Em troca da rejeição do 'impeachment', PT oferece, às claras, a outros partidos, ministérios vagos após saída do governo do PMDB. Michel Temer garante que não fará o mesmo

À porta do gabinete do ministro da Secretaria do Governo, Ricardo Berzoini, fazem-se filas. É a ele, um militante do PT fiel a Lula da Silva, que cabe a distribuição pelos partidos que restam na base aliada das centenas de cargos deixados vagos pelo desembarque do PMDB. O Executivo quer assegurar a fidelidade de 147 deputados de nove forças políticas para ter a garantia de que chega aos 171 necessários para rejeitar o 'impeachment' de Dilma Rousseff.

"Trocas de cargos ocorrem 365 dias por ano num governo federal", desdramatizou Ricardo Berzoini, como resposta às críticas das cúpulas do PMDB e da oposição que chamaram à situação "uma liquidação do Estado".

O editorial do jornal 'O Estado de S. Paulo', que assume ser contrário ao governo, usou a expressão do chefe de gabinete da presidência Jaques Wagner, que vê o PT em fase de "repactuação de relação com a sua base", para criticar os negócios do Planalto. "Repactuar a relação, em português claro, significa concentrar a ação política do governo no varejo do toma lá dá cá com os parlamentares que aceitarem o risco de se beneficiarem de uma sinecura com prazo de validade certamente muito curto".

Pela sobrevivência ou queda de Dilma, Brasília tornou-se nos últimos dias um supermercado político, onde a oferta e a procura determinam o preço de cada partido e parlamentar - o PT negoceia à claras lugares no governo atual, PMDB fará o mesmo, pensando num governo eventual. Embora Michel Temer negue. "Não entramos nisso", disse o vice-presidente do Brasil é líder peemedebista.

Há fatores que baralham o preço dos deputados. Primeiro, o momento da transação: a maioria dos partidos sabe que, se aceitar um acordo agora, pode perder melhor oportunidade de negócio à beira do impeachment, ou "na xepa", como é conhecida no país a hora do fim das feiras, em que os comerciantes vendem em desespero. E depois o facto dos seis ministros do PMDB resistirem a sair. Com isso, o PT, que já ofereceu a pasta da Saúde ao PP (bancada de 49 deputados) e as Minas e Energia ao PR (40 deputados), pode ter de voltar atrás. E o PMDB, por sua vez, vê a sua debandada perder impacto.

Talvez por isso, o peemedebista Renan Calheiros, presidente do Senado, tenha dito ontem que "a saída do governo do PMDB não foi inteligente". Leonardo Picciani, líder parlamentar do partido, e da minoria pró-Dilma, revelou por outro lado que tem um acordo tácito com o governo de fazer 25 deputados peemedebistas votar contra o impeachment em troca de manter a pasta da Saúde, ministério que gere apetecível orçamento de 30 mil milhões de euros.

Enquanto PT e PMDB se movem, fez furor uma frase de um juiz do Supremo, Luís Roberto Barroso, numa reunião ontem com alunos que não sabia que estava a ser gravada quando disse "meu Deus, a nossa alternativa de poder, é essa?".

Dilma contra "o ódio"

Entretanto, em cerimónia em que recebeu apoio de artistas, Dilma criticou quem destila "ódio, raiva, rancor e perseguição". A presidente sublinhou ainda que o crime de que é acusada no pedido de impeachment, "pedaladas fiscais", ou seja, manobras orçamentais, "todos os presidentes fizeram", em resposta a afirmações de Miguel Reale e Janaína Paschoal, subscritores do processo, na Comissão do Impeachment na quarta-feira. Ontem, foi a vez de Nelson Barbosa, ministro da Fazenda, ir à mesma comissão defender Dilma.

Nas ruas, foi dia de manifestações por todo o país contra o impeachment organizadas por movimentos sociais, como o Movimento dos Sem Terra, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto e centrais sindicais.

Lula no Supremo

No Supremo Tribunal Federal, a maioria dos 11 juízes decidiu que todas as escutas telefónicas a Lula da Silva, envolvendo Dilma e outros ocupantes de cargos públicos com foro privilegiado ou não, vão ser julgadas pela principal corte do país e não por Sérgio Moro, o juiz de primeira instância que comanda a Lava-Jato e autorizou a revelação do conteúdo das escutas.

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