Governo francês suspende aumento de impostos em 2019

A três dias de uma manifestação de alto risco, Emmanuel Macron e o seu governo aumentaram os esforços para tentar amenizar a crise dos coletes amarelos. Suspensão do aumento dos impostos é válida para 2019, anuncia ministro da Transição Ecológica.

O governo francês vai renunciar em definitivo ao aumento dos impostos sobre os combustíveis se não encontrar "boas soluções" sobre a questão do poder de compra, confirmou o primeiro-ministro Édouard Philippe. O anúncio foi feito durante um debate na Assembleia Nacional. Já à noite o ministro da Transição Ecológica François de Rugy informou que o aumento dos impostos - suspenso por seis meses - não vai ocorrer em 2019.

Na terça-feira o aumento do imposto sobre o carbono foi suspenso por seis meses. No debate convocado para falar no movimento de protesto dos coletes amarelos, foi também anunciado pelo chefe do governo que o salário mínimo vai ser aumentado em 1,8% a partir de janeiro de 2019. Philippe estimou que o aumento total se situe nos 3%, ao acrescentar à indexação a diminuição das contribuições para a segurança social e o prémio de atividade.

Apelo à calma

O presidente Emmanuel Macron pede "às forças políticas e sindicais, ao patronato, para lançarem um apelo claro e explícito à calma", disse o porta-voz do governo Benjamin Griveaux, no final do Conselho de Ministros.

Édouard Philippe também chamou os protagonistas do debate público à "responsabilidade" quando uma nova jornada de protesto se desenha para sábado. "O que está em jogo é a segurança do povo francês e das nossas instituições. Todos os atores do debate público, políticos, líderes sindicais, editorialistas, cidadãos, todos serão responsabilizados ​pelas suas declarações nos próximos dias. Sim, eu lanço aqui um apelo à responsabilidade", disse Philippe.

Édouard Philippe apresentou aos deputados um comunicado a defender a moratória de seis meses sobre o aumento do imposto sobre o carbono, o congelamento das tarifas do gás e da eletricidade neste inverno, bem como a renúncia a mais rigor nas inspeções periódicas aos eículos antes do verão. Todas as medidas surgem em resposta às exigências dos coletes amarelos.

O primeiro-ministro francês negou que o governo vá criar novos impostos.

Sindicatos juntam-se ao movimento

O executivo teme uma nova explosão de violência neste fim de semana, depois dos confrontos com a polícia e dos saques que ocorreram no sábado, em particular em Paris. Teme-se uma extensão das manifestações para outros setores, numa altura em que os agricultores anunciam que também vão mobilizar-se. As organizações sindicais do setor dos transportes rodoviários apelaram para a gerve por tempo indeterminado a partir de domingo à noite.

Mas há mais: na quinta-feira os principais sindicatos vão reunir-se. Os sindicatos dos ferroviários SUD-Rail e da cimenteira Lafarge apelaram aos trabalhadores para se juntarem à manifestação de sábado.

Críticas da esquerda à direita

O líder da França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon, disse que o país está em "estado de insubmissão geral" e arrasou as medidas do executivo. A chefe de bancada do PS, Valérie Rabault, pediu o regresso do imposto sobre as grandes fortunas e a realização de uns estados gerais sobre o poder de compra.

Christian Jacob, líder dos deputados republicanos (ex-UMP), criticou "o verdadeiro responsável", o que "está no Eliseu": "Por ser incapaz de responder no momento certo aos gritos de angústia de todos os meios, todas as classes sociais e todos os territórios, você semeou discórdia e violência", acusou.

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