Generais, sargentos e cabos na corrida às eleições de outubro

São cerca de 80 membros das Forças Armadas a concorrer a cargos eletivos nas próximas eleições - da presidência a deputado estadual

O capitão na reserva Jair Bolsonaro, candidato à presidência da República do Brasil em outubro pelo PSL, lidera em todos os cenários de primeira e segunda voltas, excluído o nome de Lula da Silva, do PT, preso em Curitiba e praticamente fora da corrida, segundo sondagem da DataPoder360 publicada na terça-feira. Dias antes, durante a greve de camionistas que paralisou o país e pode custar mais de 15 mil milhões de euros ao país, gritou-se "intervenção militar já". Qual, então, o papel das forças armadas nas eleições?

"O papel de protagonista", de acordo com o general na reserva Sergio Roberto Peternelli, que ao longo de um ano de trabalho fez o levantamento de todos os militares que pretendem concorrer a cargos eletivos, não só ao Planalto, mas também aos postos de governador, senador, deputado federal ou deputado estadual. "Será em torno de uns 80, seguramente um recorde por larga margem desde 1985", afirma ao DN (ver entrevista ao lado).

O assunto chama a atenção por se verificar num país que ainda há 33 anos vivia sob ditadura militar. De 1964, quando um golpe derrubou o governo de João Goulart, a 1985, ano em que se iniciou o processo de redemocratização com a eleição indireta do civil Tancredo Neves, cujo falecimento antes da posse permitiu a ascensão ao poder do também civil José Sarney, a presidência do Brasil esteve, em sequência, nas mãos dos marechais Castelo Branco e Costa e Silva e dos generais Emílio Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Batista de Figueiredo.

Embora todos os números apontem para uma diminuição da criminalidade no Brasil, a sensação de insegurança no país, especialmente no Rio de Janeiro, contribui, segundo a maioria dos observadores, para o advento de candidatos das forças armadas. Outro fator passa pela perceção de que os militares são menos vulneráveis ao fenómeno da corrupção, exposto de forma avassaladora na Operação Lava-Jato desde 2014, do que os políticos tradicionais. Finalmente, o "efeito Bolsonaro" estimulou mais candidaturas provenientes do setor - uma boa parte concorre pelo mesmo PSL e quase todos partilham as ideias conservadoras do líder das sondagens para o Planalto.

"Esses políticos tiveram a oportunidade de chefiar o país e foram uma vergonha, destruíram o Brasil moral e economicamente", disse o general Antonio Hamilton Mourão, na posse como novo presidente do Clube Militar. Às vésperas do julgamento de Lula da Silva no Supremo Tribunal Federal, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, avisou que "o exército partilha o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade", no que foi entendido como pressão sobre a justiça. O general de brigada Paulo Chagas, que concorre a governador do Distrito Federal, respondeu-lhe nas redes sociais: "Caro comandante, amigo e líder, receba a minha emocionada continência, tenho a espada ao lado, a sela equipada, o cavalo trabalhado e aguardo as suas ordens, Lula é um ilusionista, o pior mal que aconteceu a este país."

Além de Chagas, há mais quatro candidatos militares a governador estadual: o coronel Ulysses, no Acre, o general Eliéser Monteiro, no Rio Grande do Norte, o coronel Ribamar Monteiro, no Maranhão, e o general Guilherme Theóphilo, no Ceará.

O caso de Theóphilo é sintomático da ascensão dos militares na política por ser apoiado pelo senador Tasso Jereissati, ilustre membro do PSDB, que em 1986 derrotou o triunvirato de coronéis que dominava o Estado. Entre esses três militares, estava César Cals, tio de Theóphilo. "Theóphilo é de uma outra geração, um democrata", justificou Jereissati, que foi líder do seu partido até meados deste ano. Contribui para o eventual sucesso eleitoral do general no Ceará a impressão de que está a lutar contra o que de pior a política brasileira produz, as alianças por conveniência: o candidato rival, Camilo Santana, é apoiado por coligação que inclui os supostamente desavindos PT, de Lula e Dilma Rousseff, e MDB, de Michel Temer.

São Paulo

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