Garzón: mudar nome ao partido para salvar a Esquerda Unida

A sua paíxão é a Economia, só depois a política. Aos 30 anos, o homem que ganhou fama no 15-M, ao lado do amigo Pablo Iglesias, quer provar que é hora da "esquerda mediática".

Alberto Garzón acredita que só a Esquerda Unida (IU, na sigla em espanhol) representa os verdadeiros valores da esquerda em Espanha, capaz de devolver o sentido original às instituições políticas. Pensava que uns bons resultados nas últimas eleições lhe permitiriam restruturar o partido mas acabaram por afundar mais à formação política. E agora, Garzón, de 30 anos, parece não se dar por vencido e quer continuar a lutar pelo seu projeto político, mesmo isso signifique começar de zero e dar um novo nome a IU, partido que durante algum tempo chegou a ser a terceira força política no Parlamento espanhol.

Garzón define-se como um jovem de esquerdas que começou a interessar-se na política aos 17 anos. É ateu e a sua principal fonte de inspiração política é a obra de Karl Marx. Os trabalhos de autores neomarxistas como Paul Baran, Paul Sweezy, John Bellamy Foster ou Harry Magdoff foram também para ele uma ferramenta importante para perceber o mundo moderno. Leitor voraz, gosta de andar de metro e autocarro por Madrid. Tem um Peugeot 206, carro que comprou em segunda mão em 2003. É viciado no Risk, no xadrez e nos matraquilhos e entre os seus gostos musicais estão Muse, Placebo e Linkin Park. Gosta de usar pulseiras com as cores da bandeira republicana.

Nasceu em Logroño, terra da mãe, onde passou os primeiros anos de vida. Depois, a família mudou para Sevilha e mais tarde para Málaga, a terra do pai. Iniciou a aventura política aos 18 anos quando se filiou na IU-Os Verdes na Andaluzia. Trocou os estudos de Gestão de Empresas na Universidade de Málaga por Economia, na mesma instituição de ensino. Mas ele próprio já confessou que passava mais horas na biblioteca do que nas aborrecidas aulas.

Realizou os estudos entre 2003 e 2008 e posteriormente Alberto Garzón fez uma pós-graduação em Economia Internacional e Desenvolvimento na Universidade Complutense de Madrid. Foi aí que teve como professor o economista espanhol José Luis Sampedro, a quem Garzón agradece ser o fundador da sua escola de pensamento. Foi investigador na Universidade Pablo de Olavide de Sevilha e membro do coletivo Economia Crítica e Crítica de Economia.

A Economia sempre foi a sua paixão e foi o motivo pelo qual entrou na política. Com 19 anos participou na fundação da Estudantes por uma Economia Crítica, fundação à qual presidiu durante quatro anos e depois integrou-se no movimento Estudantes de Esquerdas.

O seu lugar na IU

Aos poucos, Alberto Garzón começou a ganhar peso no partido. Foi número 5 nas listas para as eleições municipais de 2007 e cabeça de lista por Málaga para as legislativas de 2011. Converteu-se no deputado mais novo da legislatura, com 26 anos e renunciou ao sistema privado de pensões a que têm direito os membros do Congresso.

Entrou na direção de IU com 27 anos e ficou responsável da área da Economia Política Global. Não tardou em demonstrar a sua personalidade forte e defender as suas ideias. Em dois meses, demarcou-se da política de parte da sua organização e pediu sanções para aqueles conselheiros do partido que comungaram "com o caciquismo das caixas de aforro".

A 21 de fevereiro do ano passado, Alberto Garzón foi eleito candidato da IU a primeiro-ministro com o 75,8% dos votos no Conselho Político Federal. Uma candidatura que reflete bem a mudança geracional e uma nova forma de entender a política e a sociedade ligada às manifestações do 15-M, que lançaram o movimento dos Indignados. Garzón tinha também a missão de evitar uma perda de votos para o Podemos, o partido nascido precisamente desse movimento do 15-M e que tem como líder o seu amigo Pablo Iglesias. E Garzón até ponderou uma candidatura comum com as duas forças políticas para as eleições do passado mês de dezembro, que nunca chegou a acontecer.

Ativista no 15-M

Alberto Garzón foi também ativista do movimento 15-M. Esteve muito envolvido e foi o porta-voz do 15-M no Congresso. Com uma presença ativa nas redes sociais, soube aproveitar o poder da Internet para chegar a um público mais jovem. Junto com Pablo Iglesias, converteu-se numa referência da "esquerda mediática", com constantes aparições nos debates televisivos.

No seu blog, Pijus Economicus (em referência ao filme "A vida de Brian, dos Monty Python), junta as suas teorias políticas e económicas. Anticapitalista, não esconde a aversão ao "arrivismo político" e à "esquerda falsamente alternativa". Considera que Espanha vive um momento de "emergência social", onde a miséria e o desemprego se estendem por causa da "gestão neoliberal da crise do governo do PP e do anterior, socialista".

Escreveu vários livros em conjunto com dois economistas de referência da social-democracia como são Vicenç Navarro e Juan Torres López. Os seus trabalhos académicos abordam as interpretações heterodoxas da crise.

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