Função pública unida na rua contra políticas de Macron

Sindicatos falam em 400 mil manifestantes em todo o país. Popularidade do presidente está em queda mas ainda nos 50%. Ministro responsável pelo setor é o que mais sobe.

O presidente Emmanuel Macron e as políticas do governo francês foram ontem alvo de uma jornada de luta organizada por todas as centrais sindicais - pela primeira vez desde 2007 - que convocaram uma greve geral de todo o funcionalismo público e mais de meia centena de manifestações nas principais cidades do país.

"Macron olha para o teu Rolex, é a hora da revolta", foi uma das palavras de ordem mais gritadas nas manifestações em que participaram mais de 400 mil funcionários públicos, segundo números de uma das centrais sindicais, a CGT. Em Paris, teriam desfilado cerca de 45 mil pessoas, segundo a mesma central. Números da polícia apontavam para cerca de metade: 26 mil. A greve abrangeu a administração pública, o ensino, a saúde, as autarquias, os transportes e correios, entre outros setores.

Em causa estão uma série de medidas propostas pelo governo do primeiro-ministro Edouard Philippe que, segundo as nove centrais ou associações sindicais representativas da função pública em França, põem em causa os direitos e regalias sociais dos cerca de 5,4 milhões de pessoas que integram este setor. Isto numa população ativa total de 29,3 milhões (dos quais três de desempregados), segundo números do Instituto Nacional de Estatística e Estudos Económicos (INSEE) para 2016.

Os sindicatos contestam o congelamento dos vencimentos, a manutenção do valor dos descontos para a Contribuição Social Generalizada (CSG), que financia a segurança social, o não pagamento do primeiro dia de baixa, a supressão de 120 mil postos de trabalho entre 2017 e 2022, a redefinição das missões dos funcionários e outras "medidas regressivas" para a situação social dos abrangidos por estas medidas.

As manifestações decorreram sem incidentes, de modo geral, exceto em Paris, onde se verificou o apedrejamento de algumas agências bancárias e alguns momentos de tensão com as forças da polícia.

Na manifestação na capital francesa estiveram também presentes dirigentes e representantes dos principais partidos da esquerda. Para o secretário-geral de uma das mais importantes centrais, a Força Operária, Jean-Claude Mailly, o grau de mobilização alcançado "reflete muito mais do que qualquer mal-estar no funcionalismo público". Reflete "a falta de respeito" com que os profissionais nas áreas em causa são tratados, considerados como "preguiçosos" e "oportunistas", disse o sindicalista.

Por seu turno, uma enfermeira de Paris, Françoise, citada pela AFP, referia, além das questões salariais, a degradação das condições de trabalho nos hospitais que "se transformaram em fábricas (...) e onde os doentes se tornaram objetos".

A greve obrigou ao encerramento de uma série de repartições públicas e estabelecimentos de ensino, e obrigando à redução de serviços em hospitais, transportes e à anulação de 30% dos voos previstos para ontem, pois o dia de luta abrangia igualmente os controladores aéreos. Um dos objetivos centrais da iniciativa de ontem foi o de pressionar o ministro para a Administração Pública, Gérald Darmanin, que tem encontro marcado com os sindicatos no dia 16 para discussão das questões remuneratórias.

A jornada de luta - considerada como um sucesso dos sindicatos pela maioria dos analistas atendendo ao nível de mobilização conseguido - verificou-se no mesmo dia em que foi divulgada uma sondagem Ifop-Fiducial, para a Paris Match e a Sud-Radio, revela um Macron em queda de popularidade e uma subida desta para alguns dos seus ministros. Nomeadamente para Gérald Darmanin, que sobe 9 pontos, a maior subida entre os membros do executivo. Em contrapartida, Macron recua três pontos, mas mantém-se ainda nos 50%. Para o presidente e governo, a contestação social ainda não está a ter consequências.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG