Fugir para a frente é a melhor maneira de a Folha ser a Folha

Sérgio Dávila, editor-executivo da Folha de São Paulo, homenageou durante uma cerimónia inter-religiosa Otavio Frias Filho, o diretor de Redação que morreu a 21 de agosto, com 61 anos. O DN republica aqui o texto, mantendo a grafia brasileira. A Folha de São Paulo é parceira do DN no âmbito do projeto de lusofonia da Global Media.

Prezada família Frias de Oliveira, Fernanda e meninas, Maria Helena, Luiz, Maria Cristina, filhos, sobrinhos, amigos, colegas, autoridades e visitas.

Caros dom Fernando, Frei Alain, Rabino Michel e Priscila Veltri.

Meu nome é Sérgio Dávila, sou editor-executivo da Folha e, representando os funcionários do jornal, faço aqui uma homenagem a Otavio Frias Filho.

Nos últimos dias, temos lido e ouvido múltiplos depoimentos que contam um pouco do Otavio em épocas diversas. Eles formam um mosaico da capacidade que ele teve de impactar diferentes gerações em áreas tão distintas quanto jornalismo, teatro e ciência.

Este é o meu depoimento, nascido de memórias dos 25 anos que tivemos de convivência, os últimos oito de contato diário e intenso. Eu peço desculpa antecipada pela precariedade deste texto, primeiro porque eu estou muito emocionado. E, depois, porque é um dos primeiros que eu produzo em quase uma década que o Otavio não tenha lido antes.

Nós tínhamos um acordo de eu mostrar a ele quase tudo o que tinha escrito para publicação porque, como ele gostava de dizer: "Sérgio, pelo seu cargo, você conota a Folha".

Sempre muito cordato no nosso convívio, Otavio desenvolveu uma escala não declarada para a qualidade dos textos: "Muito bom" queria dizer que estava no limite do publicável; "Ótimo" significava que não tinha erros e fazia algum sentido; "Excelente" era algo que ele leria no jornal sem passar vergonha.

Um dos últimos que eu submeti foi uma crônica que fiz para um jornal de bairro sobre paternidade. O tema o interessava mais e mais. Nós conversávamos a respeito, e ele, que foi pai antes, dizia: "Neste assunto, todos os clichês são verdadeiros".

A resposta veio por email, dias antes de o perdermos: "Caro Sérgio. Li, achei excelente. Identifiquei-me, claro, risos... e tem passagens que comovem discretamente. abraços, Otavio".

Como na definição de Nelson Rodrigues, Otavio era uma "flor de obsessão". Uma das principais era o cuidado com o texto. Ele gostava de repetir uma frase: "O texto médio jornalístico tem a capacidade de ser ao mesmo tempo obscuro e superficial".

Mandava a todos -"panfletava", como ele dizia- o artigo "A Política e a Língua Inglesa", de George Orwell, que considerava um guia de estilo. Fazia o mesmo com o "Sermão da Sexagésima", do padre Antônio Vieira. Dava o livro Como Escrever Bem, de William Zinsser, para repórteres.

Otavio não se considerava ele próprio repórter, dedicou-se mais ao ensaísmo e à dramaturgia, mas eu não conheci pessoa mais genuinamente curiosa sobre tudo e mais preparada para cobrir um assunto do que ele.

Há alguns anos, por iniciativa dele, eu e os secretários de Redação da Folha marcamos algumas visitas a locais de grande apelo noticioso no Brasil.

Otavio achava saudável que o comando do jornal tivesse sempre que possível contato direto com a notícia, sem intermediações. Fomos a Belo Monte, então em fase final de construção; para as obras da Olimpíada do Rio de Janeiro; para Suape, em Pernambuco; e para uma das piores favelas de São Paulo em termos de condições de vida.

Uma cena em Altamira, no Pará, ilustra o que eu quero dizer. Estávamos numa caminhonete no meio da transamazônica. Um dos engenheiros responsáveis pela construção da usina era quem dirigia o carro, tendo Otavio no banco do passageiro e eu no de trás.

Num percurso de duas horas, Otavio deve ter feito cerca de cem perguntas ao pobre homem.

O engenheiro suava, dirigia a caminhonete na parte de terra da estrada e respondia bravamente às questões, todas pertinentes.

Elas iam, na imagem que Otavio gostava de usar, "da floresta para a árvore": de dúvidas mais gerais, como orçamento, às mais específicas, como o cardápio dos operários nas cantinas e os diferentes usos do concreto.

Já perto de chegarmos ao canteiro de obras, houve um breve silêncio. O engenheiro pensava ter dado conta da missão. Mas veio a pergunta final: "O senhor pode me dizer uma última coisa? O que afinal é o concreto?".

Nesta viagem ainda, ficou patente como a preocupação com o contraditório, outra obsessão dele, não era retórica, mas prática: ao definirmos o programa da visita, ele pediu que fossem incluídos encontros com a principal ONG crítica à obra e com a maior liderança indígena entre as tribos afetadas pelas mudanças de curso de rios.

Ele perdia o sono com a possibilidade de a imprensa, com seu poder e alcance, realizar o que chamava de "pequenos assassinatos diários", citando o cartunista Jules Pfeiffer, ou "pequenos casos Dreyfus", referindo-se à condenação injusta, com ajuda dos jornais, de um oficial judeu na França no final do século 19.

Otavio admirava o sistema de freios e contrapesos criado pelos pais fundadores dos Estados Unidos.

Veio deles parte de sua inspiração para a implantação no Brasil de institutos como o ombudsman, o erramos, o outro lado, que, junto do jornalismo crítico, plural e apartidário, fizeram do Projeto Folha algo que perdurasse.

Otavio era um iluminista. Usava uma imagem muito feliz da Folha como uma "aldeia de Asterix", no sentido de o jornal ser um foco de resistência contra o poder constituído, contra o pensamento monobloco, contra as patrulhas ideológicas e a favor da circulação de ideias.

Delegava antes e cobrava depois. Ele preferia levar sustos lendo a Folha a fazer o que chamava brincando de "jornal para cardíacos", previsível e acomodado. Quando assumi o cargo de editor-executivo, me pediu: "Elogie em público, critique em privado".

E não era passadista. Achava o jornal de hoje melhor do que o de ontem, do ano passado, da década anterior. Aos saudosistas recomendava sempre: "Leia as coleções e comprove."

Otavio liderou os três últimos grandes projetos do jornal, o novo Manual da Redação, o novo projeto editorial e a nova reforma visual. Renovou os alicerces sobre os quais se instala o Projeto Folha.

Ele era meu superior hierárquico (Otavio odiava a palavra chefe). Mas eu o considerava meu amigo.

Íamos ao cinema em exibições que eu arranjava pela manhã, depois almoçávamos para discutir séries de TV, ampliar uma nunca concluída lista de melhores filmes sobre jornalismo -Cidadão Kane sempre em primeiro lugar- e falar sobre nossa profissão.

Quando um aspecto pioneiro do jornal era adotado pela concorrência, ele dizia: "Sérgio, temos de fugir para a frente!". Queria dizer que a melhor maneira de a Folha continuar sendo a Folha era olhando para o futuro, pensando na próxima novidade.

É neste espírito que concluo minha fala. Em memória de Otavio Frias Filho, fujamos para a frente.

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