"Forçámos pessoas a estarem numa fila durante 25 horas"

Conhecido pela forma acolhedora como recebeu refugiados, o atual diretor da LAGeSo, Sebastian Muschter, critica a atuação "muitas vezes perigosa" da administração pública alemã. Admite as falhas cometidas em 2015 mas garante que muitas delas foram já entretanto corrigidas

Decidiu trocar um emprego estável como consultor privado e dirigir um órgão estatal em crise. Porquê?

Estava à espera de bem pior, de ter um desafio mais difícil. Trata-se de perceber o que fazer, de como fazer e com quem fazer. Não se trata de ter um general a comandar as tropas e a dar ordens. Numa crise, eles querem alguém que os apoie e que os acompanhe na batalha, que lhes indique uma saída e não se limite a apontar culpas e dizer "falhaste" ou "o problema é teu". Neste momento tenho duas mil pessoas a trabalhar comigo.

No ano passado chegaram a Berlim 90 mil refugiados. As filas junto às instalações da LAGeSo eram enormes, multiplicavam--se as queixas do frio, fome e houve até casos de violência e um rapto. Que agência foi encontrar em janeiro, no seu primeiro dia de trabalho?

Encontrei pessoas motivadas, com enorme vontade de ajudar os refugiados, mas frustradas. Toda a estrutura e todos os processos da organização bloqueavam-nas, impediam-nas de serem eficazes. Trabalhavam duro mas não viam nenhum progresso. Por isso "só" tive de usar essa motivação, e dar-lhes condições para serem bem--sucedidas. Claro que não fiz todo este trabalho sozinho, foi um esforço de equipa.

A Alemanha sempre foi conhecida pelo seu rigor e organização, mas o cenário foi descrito como caótico e perigoso. O que falhou?

Temos de admitir que a LAGeSo e outras organizações fizeram um trabalho horrível durante meses. Foi muito cruel a forma como tratámos os refugiados. Forçámos pessoas a estarem numa fila durante 25 horas, não lhes dávamos dinheiro, não tinham água e não faziam ideia de como sair daquela situação. Estavam encurraladas e frustradas. E houve alturas em que os ânimos aqueceram e as pessoas se tornaram violentas. Foi uma situação muito má. Se me pergunta o que é que correu mal, posso dar duas respostas contraditórias: nada correu mal, tudo correu mal. Por um lado, a nossa estrutura não tinha capacidade para lidar com a entrada de um número tão elevado de refugiados. E é difícil entender como é que a administração pública foi tão ineficaz. Por outro lado, também posso dizer que não houve nenhum erro. A LAGeSo recebeu 40 vezes mais pessoas do que cinco anos antes, isto é, os refugiados que entraram em Berlim em 2015 foram 40 vezes mais do que em 2011. Qual é a empresa privada que consegue enfrentar este crescimento em tão pouco tempo e não sofrer dores de crescimento e falhar com os seus clientes? No caso da LAGeSo, somos a única alternativa dos refugiados.

O que é que tratou de corrigir quando assumiu o cargo?

Consertar os sintomas e os problemas. Os sintomas eram o sofrimento que estávamos a provocar aos refugiados. Os problemas eram mais profundos. Faltava-nos uma estrutura preparada para receber tantos refugiados. Se olharmos para outros serviços, como por exemplo hospitais, polícia ou para os bombeiros, percebemos que eles têm processos para enfrentar situações de emergência. Processos que não tínhamos. Por isso, ajudei a criar esses sistemas. Por exemplo, agora temos uma triagem que nos permite olhar para cada refugiado de forma rápida e perceber quais são as necessidades que tem. Precisa apenas de algum dinheiro, de abrigo ou de uma assinatura num papel? Antes não fazíamos isso.

Contrataram mais gente?

Sim. Por exemplo, a parte mais burocrática do processo de registo é feita por uma equipa externa.

Neste ano o número de refugiados que tem chegado à Alemanha e a Berlim diminuiu drasticamente. Isso tem facilitado muito o trabalho da LAGeSo?

Sim e não. Temos dois trabalhos diferentes, para os refugiados que estão a chegar e para os que já cá estão. No primeiro caso, é preciso tratar do registo, do abrigo, do pedido de asilo, etc. Essa parte agora é muito mais fácil. Mas a outra, que consiste em lidar com os refugiados que já cá vivem, exige muita dedicação, talvez mais do que nunca. Primeiro esvaziámos ginásios para acolher as pessoas, agora é preciso dar-lhes um abrigo mais permanente e tratar de todas as burocracias. Ainda há muito para fazer. Mas as diferenças são enormes. Antes encontrávamos enormes filas, agora a LAGeSo parece Munique depois da Oktoberfest. Há muitas tendas brancas mas estão todas vazias porque agora a espera faz-se num sítio mais agradável, no Centro Internacional de Congressos de Berlim, que reabrimos há uns dias.

Que balanço faz dos primeiros seis meses à frente da LAGeSo?

Ainda temos muito trabalho pela frente. As críticas que nos fizeram no passado já não se justificam. Mas todas as semanas continuo a receber queixas dos voluntários, porque não direcionámos corretamente uma família, ou um refugiado não recebeu os medicamentos de que precisava. Estou muito contente com o progresso da LAGeSo, mas ainda há aspetos que precisam de ser corrigidos.

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