Fillon neutraliza críticas e recusa alternativa à sua candidatura

Candidato obteve apoio renovado do partido para as presidenciais de abril e maio, mas vai ter de negociar com diferentes correntes no seu interior. É ouvido pela justiça no dia 15.

A menos de 50 dias da primeira volta das presidenciais francesas, que decorrem a 23 de abril, nunca se assistiu a "situação tão confusa" como a que se vive devido às suspeitas em torno do candidato da direita e do centro, François Fillon. Este é suspeito de ter criado empregos alegadamente fictícios para a mulher e para dois filhos do casal, como assessores parlamentares. O diagnóstico foi traçado por Alain Juppé, derrotado na segunda volta das primárias da direita e do centro, por Fillon, e que ontem garantiu não ser, em caso algum, candidato ao Eliseu.

O nome de Juppé fora recuperado à medida que se acentuou a queda de Fillon nas sondagens. Um próximo do antigo presidente Nicolas Sarkozy, François Baroin, foi igualmente citado, além de outros "barões" do partido Os Republicanos (Les Republicains, LR, em francês). No entanto, a presença daquele último no comício da campanha de Fillon em Paris, no domingo, e o apelo de Sarkozy, ontem, para uma reunião de alto nível entre ele próprio, o candidato e Juppé já no dia de hoje indicia uma tentativa final de reunir Os Republicanos em torno de Fillon e devolver dinâmica à sua campanha.

Por isso, aquele insistiu ontem ao final do dia, perante uma reunião do comité político de LR, que "não há um plano B"; o fundamental é que "cada um recupere" a noção daquilo que está em jogo. Com esta intervenção, Fillon parece ter neutralizado os argumentos que se multiplicaram nos dias mais recentes e em que se pedia a sua "desistência" e a nomeação de um "sucessor".

Se o comité político não tinha poderes para forçar Fillon a afastar-se, não deixaram de se ouvir críticas à linha política adotada por este, após divulgação do caso pelo jornal Le Canard Enchainé, em artigos publicados no final de janeiro e durante o mês de fevereiro. François Baroin declarou que "és o nosso candidato (...), mas tens de manter a linha política pela qual foste escolhido". Outras figuras relevantes dos LR, como Nathalie Kosciusko-Morizet e Laurent Wauquiez, sublinharam a necessidade de se "pôr fim às palavras agressivas de alguns, em particular contra os centristas" da UDI. O presidente desta formação, Jean-Christophe Lagarde, que retirou o apoio a Fillon, mantinha ontem: os "LR têm de mudar de candidato para haver uma hipótese de vitória". Lagarde disse que os LR são o aliado privilegiado da UDI, mas com novo candidato. O que, a avaliar pela reunião do comité diretivo de LR, não vai suceder.

No final, um dirigente de LR, Gérard Larcher, afirmou que o "comité político renovou, por unanimidade, o apoio e a confiança a François Fillon". Este, que continua com as ações e contactos previstos, apesar da hemorragia de quadros que se tem verificado na sua campanha na passada semana, foi ontem longamente ovacionado à entrada para um encontro com empresários de PME. Nenhum outro candidato, nem o popular Macron, cada vez com uma posição forte nas sondagens, teve direito a igual recepção.

O candidato apoiado pelo LR prometeu uma "nova equipa" para esta semana, demonstrando que ele é uma personalidade "federadora". Perante o cenário de uma cimeira Sarkozy-Juppé-Fillon compreende-se o que pode ser o tema principal em discussão. Algumas personalidades do partido sugeriam que Baroin poderá ser o primeiro-ministro se Fillon chegar ao Eliseu em maio.

Mas poucas horas deste encontro, uma sondagem mostrava que apenas 29% dos franceses querem Fillon mantenha a candidatura ao Eliseu, com 71% a pronunciarem-se em sentido oposto. O trabalho do instituto Harris Interactive, para a RMC e para a publicação online Atlantico, mostrava, contudo, que aquele primeiro número apresentava uma pequena melhoria, face a sondagem idêntica da passada semana, quando apenas 25% dos inquiridos se pronunciaram contra a desistência de Fillon.

O desenlace da reunião do comité diretivo não significa o fim das críticas a Fillon. Um antigo primeiro-ministro de Jacques Chirac, Dominique de Villepin, declarava ontem, de forma taxativa, que "certamente não votaria" em Fillon, caso persista a candidatura. Por seu lado, o presidente do partido na região da Provença-Alpes-Côtes-d"Azur, Christian Erdosi, afirmava que Fillon "não pode ganhar (...) e não se pode contentar em dizer que "sou eu que tenho legitimidade" por ter ganho as primárias".

Fillon é ouvido pela justiça no próximo dia 15.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG