Fillon e Le Pen assistem da bancada a lutas na esquerda

Candidatos da direita e extrema-direita pensam no duelo. Nos socialistas, Valls admite avançar contra Hollande, mas recusa demitir-se

Com Marine Le Pen já em (pré-)campanha pela Frente Nacional e François Fillon confirmado no domingo como candidato da direita, a verdadeira batalha agora em França trava-se à esquerda. Com vários nomes já oficializados, entre eles o do ex-ministro da Economia Emmanuel Macron, François Hollande tem vindo a adiar a decisão sobre o seu futuro. E depois de no domingo Manuel Valls ter admitido numa entrevista avançar com a candidatura mesmo que o presidente se apresente, o almoço semanal entre os dois, ontem no Eliseu, terá sido tenso.

"O ambiente foi muito cordial e estudioso", garantiu o Eliseu depois de os media especularem sobre o rosto fechado com que Valls saiu do almoço, sem prestar declarações.

As especulações começaram no sábado, quando o presidente da Assembleia da República francesa, o socialista Claude Bartolone, sugeriu que Valls e Hollande deviam ser ambos candidatos às primárias da esquerda, previstas para janeiro. No domingo, pressionado para esclarecer que estaria disposto a avançar contra o presidente, Valls não negou. "Tomarei a minha decisão em consciência", afirmou ao Journal du Dimanche. Ao final do dia, na rádio Europe 1, o porta-voz do governo, Stéphane Le Foll, garantia, por seu lado, que não pode haver uma primária entre o presidente e o primeiro-ministro. "Isso não existe, não é imaginável a não ser nos espíritos que têm um pouco a tendência para confundir o ressentimento pessoal com o interesse geral."

Com tantas contradições, os rumores sobre uma eventual demissão de Valls não tardaram. Bem como sobre a sua substituição na chefia do governo pelo atual ministro do Interior, Bernard Cazeneuve. Ontem, Matignon negou qualquer intenção de Valls de se demitir. "O chefe do governo tem sentido de Estado", afirmou o gabinete do primeiro-ministro, citado pela AFP. "Não pode haver, num momento em que França enfrenta uma ameaça terrorista, um confronto político entre um presidente e um primeiro-ministro no quadro de uma primária", lê-se no comunicado.

Manuel Valls sempre pensara que a sua oportunidade só chegaria em 2022, confessou um dos seus assistentes, citado pelo Politico Europa, mas a popularidade em queda livre de Hollande - nos 15% em novembro - e a perspetiva de um desastre eleitoral, com as sondagens a deixarem o candidato da esquerda de fora da segunda volta das presidenciais do próximo ano, terá espicaçado as suas ambições.

Segundo o Le Monde, Hollande só recentemente terá percebido que o seu chefe de governo andava a conspirar contra ele. Um assessor da presidência explicou ao diário: "Sempre pensámos que Macron era o traidor. Afinal, era Valls..."

Múltiplos candidatos

Enquanto Fillon e Le Pen se concentram nas suas equipas de campanha e na estratégia que vão usar para derrotar o outro - todas as sondagens dão uma segunda volta entre o candidato da direita e do centro e a candidata da extrema-direita -, na esquerda as candidaturas multiplicam-se, nos vários partidos e movimentos. Com uma dúzia de nomes a já terem declarado a intenção de avançar nas presidenciais de 2017, entre eles Macron, que depois de lançar o seu movimento En Marche! e deixar o governo já neste mês, as primárias da esquerda continuam uma incógnita.

"Enquanto a direita se une, a esquerda dilacera-se", titulava ontem Le Figaro. Prova disso foram as críticas lançadas por Macron contra Valls. A picardia entre os dois homens é tudo menos nova, mas ontem o ex-ministro garantiu na televisão pública France 2 que o primeiro-ministro "já foi longe demais. Não se podem fazer afirmações destas em relação ao presidente... É preciso assumir as responsabilidades".

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