Fayçal, de jornalista a terrorista do aeroporto de Bruxelas

Autoridades esperam resultado de teste de ADN para confirmar identidade do homem de chapéu filmado com os suicidas

Em julho de 2014, Fayçal Cheffou dizia ser um jornalista independente e denunciava num vídeo que as refeições para os muçulmanos num centro de detenção para ilegais nos arredores de Bruxelas eram servidas "antes do quebrar do jejum no Ramadão". Desde setembro de 2015 era considerado "perigoso" pela câmara da capital belga por tentar recrutar migrantes no parque Maximilien para organizações jihadistas. Ontem, foi acusado de "participação em atividades de grupo terrorista, assassinatos e tentativas de assassinato terroristas" pelos procuradores, que aguardam só pelos resultados dos testes de ADN para confirmar que era ele o terceiro terrorista de Zaventem.

Fayçal, que foi detido na quinta-feira à noite, será o homem de chapéu e casaco bege que surge nas imagens de videovigilância ao lado de Najim Laachraoui e Ibrahim El Bakraoui, os dois suicidas que se fizeram explodir no aeroporto de Bruxelas, na terça-feira, matando 14 pessoas. Fayçal foi identificado pelo taxista que transportou os três para Zaventem. Um quarto terrorista, Khalid El Bakraoui (irmão de Ibrahim), fez-se explodir na estação de metro de Maelbeek, causando a morte a mais 17 pessoas. Um quinto suspeito, filmado a seu lado, continua por identificar.

Segundo o procurador federal Frédéric Van Leeuwn, a mala que o homem do chapéu abandonou no aeroporto, antes de fugir, continha "a maior carga de explosivos". Essa bomba acabou por não rebentar. Desde que foi detido com outras duas pessoas junto ao Palácio da Justiça, no centro de Bruxelas, que Fayçal tem mantido o silêncio. Nas buscas a sua casa não foram encontradas armas ou explosivos. Segundo o Le Soir, o burgomestre da capital, Yvan Mayeur, tinha denunciado várias vezes Fayçal às autoridades por causa do "ativismo" no parque Maximilien, acabando por proibi-lo de entrar no recinto.

Plano de ataque em França

Fayçal não foi, porém, o único acusado pelas autoridades. Rabah N.,detido na sexta-feira no bairro de Saint-Gilles, foi acusado de "participação em atividades de grupo terrorista", no âmbito do inquérito relacionado com a detenção de Reda Kriket em Argenteuil (França). Procurado pelas autoridades belgas desde agosto de 2015, depois de ter sido condenado à revelia num processo que incluía Abdelhamid Abbaoud (alegado cérebro dos atentados de 13 de novembro em Paris que fizeram 130 mortos), Kriket estaria numa "fase avançada" da preparação de um novo ataque em França. Abbaoud foi morto numa operação policial em Saint-Denis a 18 de novembro.

Um terceiro suspeito, preso na sexta-feira em Bruxelas junto a uma paragem de elétrico em Schaerbeek, foi identificado como Abderahmane Ameroud e o juíz prolongou por 24 horas a detenção. Segundo os procuradores, a prisão estará relacionada com o ataque travado em Paris, sendo o seu nome bem conhecido das autoridades francesas.

Em maio de 2005, Ameroud foi condenado a sete anos de prisão e proibido de voltar a França por cumplicidade no assassinato do comandante Ahmed Shah Massoud - ex-ministro da Defesa afegão que combatia os talibãs e foi morto dias antes dos atentados do 11 de setembro de 2001 nos EUA. Ameroud deu apoio logístico aos dois tunisinos que, disfarçados de jornalistas, fizeram explodir uma câmara de vídeo armadilhada e mataram Massoud no Afeganistão.

As autoridades revelaram entretanto que a morte de um segurança de um instituto nuclear belga, dois dias após os ataques de Bruxelas, não tem ligação ao terrorismo jihadista. Os procuradores negaram ainda que o seu cartão de segurança tivesse sido roubado. Na quinta-feira, o jornal DH informou que os autores dos atentados tinham pensado atacar centros nucleares, mas tiveram que alterar os planos devido a uma série de detenções.

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