Extremismo da AfD causa primeiras baixas

A voz da corrente populista foi ultrapassada à direita. Frauke Petry demite-se da liderança e do partido que causou sensação nas eleições da Alemanha

Na segunda-feira anunciou que não iria sentar-se no Bundestag ao lado dos camaradas de partido. Ontem, a colíder Frauke Petry anunciou que vai deixar a formação partidária. Ainda com meio mundo surpreendido com a eleição de 94 deputados (em 709) da AfD (Alternativa para a Alemanha) e as lutas internas fazem os primeiros estragos no movimento que, tendo nascido em 2013 contra o euro, se tornou num partido cada vez mais extremista.

"Nós tentámos mudar o rumo, mas temos de perceber quando se chega a um ponto em que isso não é mais possível. Tenho cinco filhos por quem sou responsável e, no fim de contas, tenho de conseguir olhar-me ao espelho", disse Petry, referindo-se também ao marido, Marcus Pretzell, líder regional na Renânia do Norte-Vestefália e eurodeputado que vai passar a independente. "A minha decisão fundamenta-se em exclusivo na minha visão não muito otimista de como a AfD deverá evoluir", disse Pretzell. Frauke Petry assumiu a liderança de facto em 2015, e com ela a corrente mais à direita, contra a imigração e o Islão. Nessa altura, cinco dos sete eurodeputados saíram do partido. Agora, há notícias de cinco deputados estaduais (na Renânia do Norte e em Mecklemburgo-Pomerânia) também baterem com a porta por não se reverem no discurso de dirigentes como o líder da AfD na Turíngia, Björn Höcke. Em janeiro criticou a forma como se ensina o genocídio nazi nas escolas e desdenhou o Memorial do Holocausto, em Berlim. Sem sucesso, Petry tentou expulsar Höcke do partido. Já em setembro, Alexander Gauland - um dos fundadores da AfD - afirmou que os alemães "têm direito a sentir orgulho dos feitos dos soldados nas duas guerras mundiais".

A interrogação que muitos fizeram de imediato é se Petry atrairá outros deputados da AfD e com isso formar um grupo parlamentar. Um cenário que, para já, não se afigura muito provável, porque teria de arregimentar mais 29 descontentes. "A posição de Petry surpreendeu-nos a todos, mas até ao momento não vemos que vá ser uma tendência", comentou Alice Weidel, uma das novas figuras de proa do partido.

A AfD obteve 12,6% dos votos no domingo. Tão ou mais impressionante, dos 5.877.094 de votantes terá conseguido convencer 690 mil abstencionistas. E os números das transferências de votos também são significativos. À custa da CDU/CSU recebeu quase um milhão de votos, aos sociais-democratas do SPD 470 mil votos e ao Die Linke (A Esquerda), 400 mil. A AfD tem mais apoiantes no leste: obteve 20,5% na antiga RDA. Mas a mensagem populista chega a todo o lado. Em Duisburgo, cidade da indústria do aço, regista-se mais do dobro da taxa de desemprego nacional. Ali vota-se tradicionalmente SPD, mas a AfD alcançou um resultado histórico, 13,2%. "Esquecidos" e "deixados para trás" é como o professor Holger Joel crê que os eleitores se sentem naquela cidade do vale do Ruhr, conta à Deutsche Welle . Nos arredores, em Marxloh, a AfD chegou aos 30%. A maioria da população não pôde votar: mais de três quintos são imigrantes. "Por vezes a AfD tem razão. Alguns estrangeiros fazem crimes, mas não somos todos iguais", diz o sírio Aras Ibrahim.

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