Ex-procurador acusa Maduro de forçar prisão de opositor

Franklin Nieves, que fui para Miami e que Caracas considera um traidor, liderou a acusação contra Leopoldo López

Durante meses, foi o rosto da acusação contra o dirigente da oposição venezuelana, Leopoldo López, conseguindo que fosse condenado a quase 14 anos de prisão por incitação à violência nos protestos contra o governo. Agora, o ex-procurador Franklin Nieves, que fugiu para Miami e já pediu asilo político aos EUA, é a voz que denuncia a alegada pressão feita pelo presidente Nicolás Maduro para que usasse provas falsas e garantisse essa mesma condenação.

"Decidi deixar a Venezuela com a minha família por causa da pressão exercida pelo executivo para que continuasse a defender as provas falsas que usei para condenar Leopoldo López", disse Nieves num vídeo de 24 de outubro, quatro dias após chegar aos EUA. "Aqueles que me conhecem sabem a angústia que vivi, como não dormi... a dor e a pressão que senti por continuar com esta farsa." Desde então, o ex-procurador (foi de imediato afastado do cargo) repetiu as acusações contra Maduro em várias entrevistas, lançando uma sombra sobre o chavismo a pouco mais de um mês das legislativas de 6 de dezembro.

Nieves, a mulher (advogada e jornalista da Radio Nacional de Venezuela) e as duas filhas saíram da Venezuela a 19 de outubro com destino a Aruba, supostamente para umas férias de dez dias. Mas, na ilha, o procurador entrou em contacto com as autoridades dos EUA e no dia 20 voou para Miami, onde pediu asilo. "Do fundo do meu coração, quero pedir perdão à Venezuela, a Leopoldo López, à sua mulher e família, especialmente aos seus filhos", disse ao The Wall Street Journal.

"Eu perdoo-o, porque o Leopoldo já o perdoou", disse Lilian Tintori, mulher do dirigente do partido Vontade Popular, que está detido desde 12 de fevereiro de 2014. "Cada dia falta menos para que a Venezuela seja livre", terá dito o marido na última vez que o visitou na prisão militar Ramo Verde, nos arredores de Caracas, quando lhe contou o que estava a passar. López foi condenado a 13 anos, nove meses, sete dias e 12 horas de prisão por alegadamente incitar à violência nos protestos de janeiro de 2014, que deixaram 43 mortos. A defesa já recorreu do veredicto e espera agora usar as denúncias de Nieves a seu favor.

"Leopoldo López é completamente inocente. Não só não havia provas contra ele, como as que se usaram foram fabricadas", afirmou Nieves ao jornal espanhol ABC, explicando que a ordem de prender López veio diretamente do presidente. Segundo o ex-procurador, havia telefonemas do gabinete de Maduro e do líder da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, para a procuradora-geral Luisa Ortega Díaz. Esta transmitia as instruções ao diretor da Procuradoria de Crimes Comuns, Nelson Mejías.

"Não tirei nenhum documento físico da procuradoria que possa ser usado como prova das pressões", explicou Nieves. "As ingerências e ordens de manipulação eram transmitidas pessoalmente, eram dadas diretamente, de forma verbal", acrescentou. A denúncia de pressões não é nova. Em 2012, um juiz do Supremo Tribunal, Eladio Aponte, fugiu do país depois de ser acusado de ligações ao tráfico de droga e acusou o então presidente Hugo Chávez de manipular a justiça.

Em declarações à W Radio, da Venezuela, Nieves explicou que a maior mentira do processo foi a acusação de que Leopoldo López incitou os manifestantes a pegarem fogo ao Ministério Público. "Nem sequer houve um incêndio. Alguns funcionários dessa entidade foram obrigados a declarar que tinham tido de usar os extintores para controlar o suposto fogo", referiu o antigo procurador.

Traidor

O líder da Assembleia Nacional venezuelana e número dois do chavismo, Diosdado Cabello, usou o seu programa semanal de televisão para responder às acusações. "É um mafioso, um traidor", disse, garantindo que Nieves recebeu "850 mil dólares" - sem especificar quem pagou esse valor e qual seria o seu objetivo. Também a procuradora Ortega Díaz negou qualquer tipo de pressão do seu gabinete, acusando Nieves de "ceder a pressões de elementos domésticos e estrangeiros".

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