Ex-presidente do Brasil diz que "Bolsonaro surfou um tsunami de raiva popular e desespero"

Na sua crónica publicada no The Washington Post, Fernando Henrique Cardoso, presidente do Brasil de 1995 e 2002, afirma não estar surpreendido com a vitória de Jair Bolsonaro, mas admite que "o impensável aconteceu".

"Como o impensável aconteceu no Brasil", assim intitulou a sua avaliação sobre a nova era que o país atravessa. Fernando Henrique Cardoso, presidente do Brasil entre 1995 e 2002, analisa o cenário político-social depois de Jair Bolsonaro ser eleito como atual presidente brasileiro, este domingo. A crónica foi publicada no The Washington Post.

"Bolsonaro surfou um tsunami de raiva popular e desespero que varreu todo o sistema político brasileiro, junto com os líderes do antigo partido", assim explica a vitória do candidato. Mas deixa claro que esta não é uma ciência linear.

Para o também sociólogo, os resultados só vieram confirmar a tendência já visível na primeira volta: "a significativa vitória de Jair Bolsonaro". "Um capitão reformado do Exército, durante décadas um congressista sem qualquer registo legislativo de valor", a favor dos interesses corporativos e "contra uma agenda liberal", "também defensor implacável da posse de armas e um ultraconservador em questões morais e culturais" - assim o descreve.

Para Fernando Henrique Cardoso, o "impensável" aconteceu para Bolsonaro na altura certa, quando um povo desacreditado da democracia e daquilo que esta lhes tinha dado se direcionou para a única possibilidade que não lhes dava mais do mesmo."Ele foi capaz de fazê-lo por causa da crescente suspeita de que a democracia representativa é incapaz de fornecer o que eles precisam", frisa.

Os alicerces para chegar aqui

Um descontentamento, na sua opinião, "agravado por uma recessão económica brutal no Brasil, a mais longa da história (do país)", com níveis de desemprego e violência a disparar - cita até os quase 64 mil homicídios registados em 2017, 175 mortes por dia - e a corrupção a ganhar forma com os partidos políticos", "especialmente o Partido dos Trabalhadores (PT) de esquerda". Após a Constituição de 1988 entrar no Brasil, lembra que além de si, dois dos presidentes eleitos entretanto foram impugnados, um está preso por suspeitas de corrupção.

"Não é de admirar que o sistema político tenha desmoronado", confessa.

A Operação Lava Jato, o aumento da força da internet, a perda de influência por parte da comunicação social são, para o ex-presidente, pilares essenciais para o que se viria a conhecer este domingo.

"Como resultado, as escolhas políticas das pessoas geralmente são guiadas por mensagens geradas por suas redes sociais. E quando a corrupção dos partidos políticos, estadistas e líderes é exposta, a raiva contra os políticos ofusca todas as outras preocupações. Isso é exatamente o que aconteceu aqui no Brasil".

Por isso, "o resultado foi nada menos que o surgimento de um líder populista sem definição clara de políticas públicas, nenhuma base real de apoio ao Congresso e nenhuma organização política de longo prazo".

O que falta fazer

O sociólogo, cientista político, professor universitário, escritor e 34.º Presidente da República Federativa do Brasil recorda a democracia como "um trabalho sempre em andamento" e "causa primordial" para a formação da sua geração.

Restituir a confiança, recuperar a economia, fomentar o emprego e expandir políticas sociais são pontos que não devem ficar de fora da "agenda para o futuro imediato". Não está, contudo, otimista. No caminho em busca da prosperidade económica e social, "o governo eleito não parece promissor". Para Fernando Henrique Cardoso, "esta crise política não termina com a eleição de ontem (domingo)".

"É imperativo reformular os fios que ligam as instituições políticas à dinâmica da economia e da sociedade", sublinha.

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