EUA e México apertam as mãos e fazem as pazes na guerra fria

Rex Tillerson, secretário de Estado norte-americano, encontrou-se com o seu homólogo mexicano. Reforçando a necessidade de colaboração, os dois fizeram baixar a tensão que se tinha acumulado nos últimos dias

São quase quatro mil os quilómetros que é preciso percorrer para ir de Washington à Cidade do México. Mas, avaliando a distância em milhas diplomáticas, as duas capitais parecem ainda mais longe uma da outra. Com Donald Trump a morar na Casa Branca e a ideia de um muro a crescer na fronteira, EUA e México têm vindo a travar uma guerra fria, contando as armas disponíveis para ameaçar o outro. Ontem, no entanto, os políticos dos dois países fizeram de certa forma as pazes e assinaram uma espécie de cessar-fogo.

Rex Tillerson, o secretário de Estado norte-americano, e John Kelly, secretário para a Segurança Nacional, estiveram no México reunidos com os responsáveis políticos locais: o presidente Peña Nieto, o ministro dos Negócios Estrangeiros Luis Videgaray, e o ministro do Interior Miguel Ángel Osorio Chong. "Não haverá deportações massivas. Tudo será legal, de acordo com o nosso sistema jurídico, em respeito pelos direitos humanos e em colaboração com o governo do México", fez questão de sublinhar Kelly durante a conferência de imprensa sem direito a perguntas. O responsável pela Segurança Nacional garantiu ainda que nos esforços para apanhar os imigrantes ilegais não serão usadas forças militares, contrariando assim aquilo que tinha sido dito por Trump.

O tom foi sempre conciliador, com todos a reforçar a necessidade de colaboração e de respeito. Videgaray sublinhou que tinham conversado sobre a "impossibilidade" de um governo tomar unilateralmente decisões que afetem o outro. Neste ponto, está em causa a polémica que marcou os últimos dias, com as novidades na política migratória emanadas de Washington. Na terça-feira, o Departamento de Segurança Interna da administração de Trump alterou as regras para lidar com os imigrantes ilegais, tornando-as bastante mais duras. As novas diretivas ameaçam devolver à procedência todos os que entrem ou tenham entrado em território norte-americano vindos do México, quer sejam ou não mexicanos. Além disso, a partir de agora podem ser expulsos todos os ilegais que tenham cometido um crime, mesmo que seja uma ofensa menor, como uma infração no trânsito. E aqueles que não consigam provar que estão nos EUA há mais de dois anos serão deportados. Neste processo o México é uma variável chave, tendo em conta que haverá mais de 11 milhões de imigrantes ilegais a viver nos EUA e que mais de metade serão mexicanos.

Depois de a administração Trump ter anunciado as novas políticas, o governo de Peña Nieto manifestou o seu desagrado. "Quero dizer da forma mais clara e enfática que o Governo do México não tem qualquer razão para aceitar decisões unilaterais impostas por outro governo", sublinhou na quarta-feira Luis Videgaray.

A ligação entre EUA e México é tão íntima e complexa que os dois lados podem recorrer a diferentes armas para fazer pressão sobre o outro. Uma das primeiras medidas de Donald Trump depois de tomar posse foi assinar uma ordem executiva a dar luz verde para construção do muro ao longo da fronteira. Na mesma ocasião, o presidente pediu também que fosse feito um levantamento de todas as ajudas financeiras que o México recebe dos EUA. Tudo indica, explica que o The New York Times, que a forma de Trump obrigar os mexicanos a pagar pela construção poderá ser cortando essas transferências ou usando-as como arma para fazer chantagem.

Nesta guerra fria o México também tem as suas armas e formas de retaliar. No caso das deportações, não pode ser obrigado a receber imigrantes sem que haja forma de provar que são mexicanos. Assim, caso não haja a agora prometida colaboração entre os dois governos, os EUA não terão tarefa simples. Por outro lado, o México pode também facilitar a vida aos migrantes que passam pelo país com o intuito de chegar aos EUA. Basta pensar que apesar da vigilância apertada que o México exerce, entre outubro de 2015 e setembro de 2016, a polícia fronteiriça norte-americana deteve 220 mil imigrantes vindos maioritariamente da Guatemala, das Honduras e de El Salvador. O México poderá ainda relaxar o combate ao tráfico de droga e boicotar a partilha de informações com os serviços secretos norte-americanos.

No atual clima, os mexicanos residentes nos EUA estão apreensivos e temem pelo futuro. Nesse sentido, Videgaray fez declarações para tentar tranquilizar os compatriotas. "O governo tomará todas as medidas legais para defender os direitos humanos dos mexicanos no exterior, especialmente nos EUA", sublinhou o chefe da diplomacia do país da América Central.

Nesta guerra fria não existe uma corrida ao armamento, mas já esteve mais longe uma corrida às retaliações. Ontem houve apertos de mão. Resta saber se o cessar-fogo diplomático irá aguentar e resistir a Donald Trump.

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