Eu, Simeon Pereira, arcebispo de Carachi e patriota paquistanês

Quando o DN conversou em 2001 com o filho de goeses que confiava no general Musharraf para proteger os cristãos.

Lá de fora chegavam os risos das crianças, numa pausa das aulas, mas o som era quase abafado pelo lento rodar mecânico da ventoinha no teto, com ar de ter tantos anos como a figura esguia, vestida de branco, que explicava ao jornalista português que "com o presidente Musharraf a proteger-nos estamos tranquilos". Simeon Pereira, 74 anos, arcebispo de Carachi, conhecia bem o general que mandava então no Paquistão e que depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, perante a pergunta de George W. Bush sobre se estava com os talibãs ou com a América, não hesitara em abrir o espaço aéreo aos aviões que atacavam o vizinho Afeganistão, refúgio de Osama bin Laden.

O muçulmano Pervez Musharraf, que liderou o Paquistão entre 1999 e 2008, estudou na escola católica anexa à Catedral de St. Patrick, uma igreja de cor bege no coração de Carachi, a maior cidade do país. "A comunidade católica do Paquistão tem desde sempre sido protegida pelo governo", declarava o arcebispo, para logo acrescentar "mas ao mesmo tempo sentimos que não temos todos os direitos". Numa parede da sala num anexo da catedral, um crucifixo, noutra ao lado de uma imagem da Virgem com o Menino e de uma tapeçaria com os mesmos motivos, uma foto de Mohammad Ali Jinnah, o fundador do Paquistão. Reproduzindo o que há 15 anos escrevi no DN, "em poucos metros, surge simbolizado o dilema do arcebispo e do seu rebanho: como ser cristão num país nascido, em 1947, para ser a pátria dos muçulmanos da Índia? E, sobretudo, como ser cristão num país muçulmano quando a crise internacional faz ressurgir palavras antigas e carregadas de sangue, como cruzada e jihad?".

Filho de goeses, daí o apelido português, mas nascido em Sukkur, o arcebispo Pereira salientava que ainda não tinha havido problemas com a comunidade cristã de Carachi, apesar das manifestações pró-talibãs na cidade. E sobre o ataque por aqueles dias a uma igreja, em Bahawalpur, onde 16 católicos foram chacinados, fazia questão de dizer que "não foi obra de bons muçulmanos, mas de fanáticos".

Responsável pela introdução do urdu como língua litúrgica em Carachi, Simeon Pereira foi arcebispo entre 1994 e 2002. Apesar de boa parte dos três milhões de cristãos paquistaneses serem hindus das castas baixas convertidos no tempo do Império Britânico, há um próspero grupo de descendentes de goeses e não por acaso o arcebispo Pereira sucedeu a Joseph Cordeiro e foi depois sucedido por Evarist Pinto. Morreu a 22 de agosto de 2006, com 78 anos, e o seu funeral foi notícia no Dawn, o grande diário paquistanês em inglês.

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