Estrasburgo. Britânicos a querer sair, catalães a querer entrar

Eurodeputados do partido de Nigel Farage mostraram que querem sair da UE virando as costas ao hino e ao presidente. Catalães apoiam independentistas eleitos.

De um lado, 29 deputados do Partido do Brexit virados de costas ao Hino da Alegria, em sinal de que se querem ir embora. A poucas dezenas de metros, dez mil pessoas manifestaram-se para que os seus eleitos possam ocupar os seus lugares. Foi de atos simbólicos que o início dos trabalhos do Parlamento Europeu ficou marcado.

Quando os eurodeputados foram convidados a levantar-se para ouvir o hino europeu, os 29 deputados britânicos do partido de Nigel Farage viraram-se de costas enquanto os quatro músicos tocavam o hino composto por Beethoven. Outros britânicos, os liberais-democratas, vestiram as camisolas amarelas que tanto deram que falar na campanha das europeias com os dizeres "Bollocks to Brexit" ou "Stop Brexit".

Outros eurodeputados aproveitaram a breve sessão para se recordarem dos ausentes. Carles Puigdemont, Toni Comin e Oriol Junqueras concorreram às eleições europeias e foram eleitos. Mas as autoridades espanholas não transmitiram os seus nomes na lista de eleitos, por não terem jurado a Constituição espanhola. O facto de os dois primeiros arriscarem prisão por vários delitos relacionados com o referendo de 1 de outubro de 2017 e de Junqueras estar preso não serve para Madrid, pelo que não podem sentar-se nos seus lugares.

O assunto chegou ao Tribunal de Justiça da União Europeia, que se escudou na lista recebida pela comissão eleitoral espanhola, tendo declinado, tal como o presidente cessante do Parlamento, Antonio Tajani, qualquer responsabilidade.

Nas ruas, os catalães responderam com música e palavras de ordem, em ambiente festivo. Além das bandeiras catalãs e de muito cartazes a apelar para a ação das instituições europeias, vários dirigentes subiram ao palco ou enviaram vídeos. Foi o que fez o presidente da Catalunha, Quim Torra, que se mostrou confiante de que os deputados possam ocupar os seus lugares. E foi o que fizeram Carles Puigdemont e Toni Comin após ter havido uma leitura de uma carta de Oriol Junqueras.

"Como não temos medo não nos rendemos nem desistimos. Se alguma causa merece os sacrifícios que estamos a fazer é a da liberdade. E a liberdade tem muitos nomes e hoje um deles é Catalunha. A causa da Catalunha é a causa da democracia", disse Comin. Por fim, Carles Puigdemont - que foi recebido aos gritos "Puigdemont, nosso presidente" - disse que os eurodeputados estão cientes de quem falta na câmara. "Visca Europa e visca Catalunya lliure" (Viva a Europa e a Catalunha livre). O ato, que levou ainda ao palco deputados de vários países em defesa de um manifesto na defesa da intervenção europeia na questão catalã, terminou com o hino da Catalunha, Els Segadors.

No primeiro dia da nona legislatura do único órgão eleito diretamente pelos europeus a agenda deveria ter sido dedicada à eleição de um novo presidente e dos respetivos vices. Mas o atraso no entendimento entre os líderes europeus quanto à designação dos cargos de topo levou a que, por arrasto, se adiasse 24 horas a ordem de trabalhos. Até às 22.00 de terça-feira os grupos políticos ou um vigésimo de deputados podia propor os candidatos à primeira volta da presidência. Caso não haja um vencedor com maioria absoluta de votos expressos, podem ser propostos novos nomes. O processo pode repetir-se até uma quarta volta, mas nesse caso só vão a votos os dois nomes mais votados e é eleito quem tiver mais votos, independentemente da percentagem.

Num dia em que se disse quase tudo e o seu contrário sobre os cargos de topo na UE, presidente do Parlamento incluído, os grupos socialistas e populares terão chegado a acordo. O alemão Manfred Weber não se candidata - como nenhum outro do Partido Popular Europeu -, abrindo a porta ao italiano David Sassoli, candidato dos Socialistas & Democratas.

Os outros candidatos são Ska Keller (Verdes), Sira Rego (GUE) e Jahn Zahradil (Conservadores e Reformistas).

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