Esteve 36 anos preso. Base de dados de impressões digitais libertou-o em horas

Archie Williams foi condenado por ter violado e esfaqueado uma mulher em 1982. As impressões digitais encontradas na cena do crime não eram as suas, mas a vítima "reconheceu-o". Passados quase 40 anos, a tecnologia provou que não era um criminoso e foi libertado. Um dos seus objetivos é ir agora para a universidade

Quando entrou na prisão, Archie Williams tinha 22 anos e os sonhos da juventude. Saiu de trás das grades na semana passada, já com 58 e as barbas brancas. Esteve detido durante 36 anos, inocentemente, condenado por uma violação e esfaqueamento que, passadas quase quatro décadas, se provou que não cometeu. E, afinal, era tão fácil ao sistema judicial norte-americano provar que o autor do crime era outra pessoa - bastou um par de horas para correr as impressões digitais encontradas no local do crime numa base de dados nacional para se concluir que o criminoso era outro, um violador em série.

"Como representante do Estado, peço desculpa", foram as palavras do procurador East Baton Rouge, Lusiana, Hillar C. Moore III, no tribunal.

Williams esteve preso durante quase 40 anos na estabelecimento prisional do Luisiana, mesmo que no julgamento tivesse sido reconhecido que as impressões digitais não eram as dele. Mas na altura a vítima de violação apontou-o como culpado quando fez o reconhecimento facial, embora houvesse algumas discrepâncias em relação, por exemplo, a uma cicatriz do agressor. A mulher dizia que este tinha uma cicatriz na clavícula, William tinha uma cicatriz no braço. A advogada que na altura defendeu William, Kathleen S. Richey, ainda alegou que a vítima também tinha descrito um homem mais alto.

Nas alegações finais do julgamento, o procurador Jeff Hollingsworth reconheceu perante os jurados que as impressões digitais encontradas não coincidiam com as de William, mas que o rosto dele estava gravado na memória da vítima. "Acha que ela não se lembrava daquele dia? Esqueceria o rosto se alguém lhe tivesse feito o que ele fez?", questionou Hollingsworth.

E justificou mesmo que as impressões digitais encontradas no local do crime, que teve lugar em dezembro de 1982, no bairro de elite de Baton Rouge pudessem pertencer a um canalizador ou carpinteiro.

Há 20 anos justiça recusou correr impressões digitais no sistema

A primeira vez que Williams pediu que as impressões digitais fossem processadas no banco nacional foi em 1999, portanto há 20 anos, mas os procuradores opuseram-se. São, aliás, poucos os estados que permitem que depois das condenações se recorra ao banco de dados de impressões digitais e ainda menos quando diz respeito ao reconhecimento facial. De acordo com o Registo Nacional de Exonerações, quatro em cinco libertações acontecem sem evidência de ADN.

"Foi incrivelmente frustrante saber que havia tecnologia por aí que levaria à verdade, que lhe atribuiria a inocência, e nós fomos impedidos", disse Vanessa Potkin, advogada do Innocence Project, uma organização sem fins lucrativos que assistiu o Sr. Williams neste processo, citada pelo The New York Times que conta toda a história.

O violador em série, que se acredita que cometeu a violação de Baton Rouge, já não pagará pelo crime que roubou a liberdade de Williams durante 36 anos. Stephen Forbes - que tinha cometido pelo menos mais cinco violações, conforme confessou - morreu na prisão em 1996. Tinha sido preso em 1986 durante uma tentativa de violação a menos de três quilómetros da casa da alegada vítima de William.

Enquanto esteve na prisão do Luisiana, William diz que se agarrou à fé. "Não houve um dia em que não me tivesse concentrado em conquistar minha liberdade", disse Williams, citado pelo NYT. "Sempre mantive uma mente positiva. Sabia que um dia a justiça viria."

William tem direito agora a uma indemnização máxima de 250 mil dólares (cerca de 220 mil euros) por ter estado preso durante 36 anos injustamente.

Quais são os planos de Archie Williams, agora que é finalmente um homem livre? Descansar, absorver tudo o que aconteceu e estudar. "Quero ir para a universidade."

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