Este ano já morreram 32 jornalistas e a Europa não escapa

Dia Mundial da Liberdade de Imprensa assinala-se hoje, dias após a morte de 11 jornalistas num duplo atentado em Cabul.

A Europa continua a ser a região do globo que mais respeita os jornalistas, mas, como mostra o World Press Freedom Index 2018, o índice de liberdade de imprensa no mundo publicado há dias pelos Repórteres sem Fronteiras, isso não significa que o continente escape à "crescente animosidade contra os jornalistas". Mais, se é na Europa que a liberdade de imprensa - cujo Dia Mundial se assinala hoje - está menos ameaçada, é também aqui que mais piorou em relação ao ano anterior. Muito devido aos assassínios de dois jornalistas de investigação nos últimos seis meses: a maltesa Daphne Caruana Galizia, em outubro de 2017, e o eslovaco Jan Kuciak, em fevereiro deste ano. Este último é um dos 32 jornalistas mortos desde o início do ano no mundo.

"É claro que isto mostra que trabalhar na Europa pode ser perigoso e difícil, muito mais do que muita gente pensa", explicou ao site WikiTribune Rachael Jolley, editora da revista Index on Censorship. Para Jolley, "as duas mortes de jornalistas de investigação num período de seis meses são uma chamada de atenção chocante para aqueles que pensavam que a União Europeia era relativamente segura para os jornalistas".

Malta e Eslováquia aderiram ambas à UE em 2004, no grande alargamento a Leste. E ambos os países tiveram de lidar com crises políticas provocadas pelas mortes de Caruana Galizia e Kuciak. Ambos foram mortos depois de terem denunciado altas figuras do poder político nos seus países. Caruana Galizia tinha acabado de publicar no seu blogue, Running Commentary, um post em que chamava "escroque" a Keith Schemberi, o chefe de gabinete do primeiro-ministro Joseph Muscat, acusando-o de usar a sua influência no governo para enriquecer. Algumas das personalidades que denunciou surgiram nos Papéis do Panamá, inclusive Michelle Muscat, a mulher do primeiro-ministro, acusada de abrir uma conta numa offshore após receber subornos do governo do Azerbaijão em troca da autorização dada a um banco azeri para operar em Malta.

A 16 de outubro, Caruana Galizia acabara de sair de casa em Bidnija quando o carro que conduzia explodiu. A sua morte foi investigada como homicídio e três suspeitos foram detidos. Mas muitos próximos da jornalista veem-nos apenas como bodes expiatórios. O seu marido, Peter Caruana Galizia, disse ao The Guardian acreditar que os três detidos são apenas "assassinos contratados" e que estão a proteger o cérebro da morte de Daphne.

Apesar da investigação em curso e de protestos populares que levaram à queda do primeiro-ministro Robert Fico e do seu governo, quem está ainda por encontrar são os culpados pela morte de Jan Kuciak. Com apenas 27 anos, o jornalista eslovaco foi morto, a 21 de fevereiro, na sua casa na aldeia de Vel"ka Maca, ao lado da noiva, Martina Kusnirova, tendo sido ambos baleados. Kuciak especializara-se em denunciar casos de evasão fiscal e desvio de fundos da UE por empresários próximos de Fico. O seu último artigo, deixado inacabado, denunciava ligações entre políticos eslovacos e a "Ndrangheta, a máfia calabresa.

Com a responsabilidade por garantir a liberdade de imprensa e a segurança dos jornalistas nas mãos de cada Estado-membro, a UE tem exigido justiça e investigações transparentes. E em abril o Parlamento Europeu aprovou uma resolução a apelar à proteção dos jornalistas de investigação na Europa.

Mas se os casos de mortes são os mais extremos, houve muitas outras violações à liberdade de imprensa na Europa no último ano. Segundo os Repórteres sem Fronteiras, "a violência verbal de políticos contra os media está a aumentar", tal como a intimidação dos media por parte do poder. No seu índice, a organização criada em França em 1985, dá o exemplo da República Checa, onde em outubro de 2017 o presidente Milos Zeman surgiu numa conferência de imprensa com uma réplica de uma espingarda com a inscrição "para os jornalistas". Na Hungria, o primeiro-ministro Viktor Órban denunciou a ingerência do milionário americano de origem húngara George Soros, acusando-o de "apoiar grupos de media independentes para desacreditar a Hungria aos olhos da comunidade internacional". O problema não se limita à Europa central, na Áustria, o partido de extrema-direita FPÖ, agora parte da coligação de governo, tem acusado a estação de televisão pública ÖRF de veicular mentiras, e em Espanha, alguns jornalistas denunciaram a "atmosfera opressiva" em torno da independência catalã.

Nos nórdicos, o choque chegou sem ligações à política. Em agosto de 2017 a jornalista de investigação Kim Novak sueca foi entrevistar o inventor Peter Madsen no submarino deste. Acabou morta, desmembrada e as partes do corpo foram aparecendo nos dias seguintes. Madsen foi condenado no dia 25 de abril a prisão perpétua.

Cair na armadilha dos talibãs

O Dia Mundial da Liberdade de Imprensa é este ano ensombrado pela morte de 11 jornalistas em Cabul no passado 30 de abril. Depois de um primeiro ataque contra a sede dos serviços secretos afegãos, um segundo kamikaze, que usava uma máquina fotográfica, fez-se explodir no meio dos jornalistas. Ambos foram reivindicados pelos talibãs. Horas depois o repórter da BBC Ahmad Shah, de 29 anos, era abatido em Khost por homens armados. "O ataque deliberado contra jornalistas [...] sublinha uma vez mais os riscos que os profissionais dos media correm para fazer o seu trabalho", sublinhou o secretário-geral da ONU, António Guterres.

Do México à Índia, da Síria à Libéria, basta olhar para o mapa dos jornalistas mortos desde o início do ano para perceber os perigos da profissão. Apesar de tudo, de 2016 para 2017, o número de mortes baixou de 122 para 82, segundo a Federação Internacional de Jornalistas.

As prisões de jornalistas, essas, aumentaram no ano passado - ao todo 262 foram postos atrás das grades devido ao seu trabalho. Turquia, China e Egito foram os países onde se registaram mais detenções, segundo os números do Comité para a Proteção dos Jornalistas (CPJ). Os 73 jornalistas detidos na Turquia foram acusados de envolvimento da tentativa de golpe de Estado contra presidente Recep Tayyip Erdogan, em julho de 2016. A China deteve 41 e o Egito 20.

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