Esquerda à espera de Valls como último recurso contra direita

Primeiro-ministro de Hollande está obrigado a defender aspetos do legado presidencial, devido ao papel político que teve desde 2014.

Com o anúncio de François Hollande de que, pela primeira vez desde a instituição do sufrágio direto na V.ª República, em 1965, um presidente em exercício não procuraria à reeleição, ficou aberto o caminho para a apresentação do seu primeiro-ministro Manuel Valls às primárias da esquerda, a 22 e 29 de janeiro.

Era um segredo de Polichinelo desde o verão que Valls, de 54 anos, e primeiro-ministro de Hollande desde março de 2014, alimentava ambições para as presidenciais de 2017. A formalização da candidatura está a ser motivo de especulação, sugerindo-se que o poderá fazer amanhã ou, mais provavelmente, domingo

O grande desafio de Valls na campanha será o de, ao mesmo tempo, defender o legado da presidência de Hollande, da qual ele foi um dos principais protagonistas, distanciando-se em simultâneo de aspetos mais controversos, quer para a esquerda quer para o centro.

A ambição de Valls foi sustentada, em parte, no constante declínio nas sondagens do presidente em exercício. Assim, numa sondagem Ifop-Fiducial de novembro, Valls surgia como o político das esquerdas mais popular, o único com mais de 50% de apreciações positivas, à frente do ex-ministro da Economia Emmanuel Macron (49%, mais liberal e centro-esquerda), de Martine Aubry (49%, ex-secretária-geral do Partido Socialista), de Jean-Luc Mélenchon (47%, esquerda radical e apoiado pelos comunistas) ou Arnaud Montebourg (46%, ministro da Economia no primeiro governo de Valls).

Mas esta é uma sondagem que não traduz o quadro real à esquerda. Macron e Mélenchon têm recusado a participação nas primárias e não é claro que Aubry seja sequer candidata. As iniciativas em que tem estado envolvida não têm apresentado resultados mobilizadores. Por outro lado, especula-se sobre a possível candidatura de Christiane Taubira, ex-ministra da Justiça entre 2012 e janeiro de 2016, ou de Anne Hidalgo, presidente da Câmara de Paris. E a lista de candidatos potenciais ou reais das esquerdas contém ainda mais nomes. Só socialistas que aceitam participar nas primárias são mais cinco além dos referidos. A apresentação de candidaturas termina a 15 de dezembro.

Mas até agora a presença na segunda volta é frustrante para a esquerda. Nenhuma sondagem concede peso eleitoral na votação de 23 de abril a qualquer candidato das esquerdas para estar presente na segunda volta, a 7 de maio. As sondagens têm dado um candidato de Os Republicanos e a líder da Frente Nacional (FN), Marine Le Pen, na segunda volta. Após a vitória de Fillon, nas primárias da direita, este obtém entre 60% a 70% dos votos contra a dirigente da extrema-direita, que terá entre 40% a 34%. Todavia, em cenários de uma segunda volta entre Marine Le Pen e um candidato da esquerda, seja ele Valls ou Macron, qualquer um deles derrotará a dirigente da FN. Ainda nas esquerdas, Mélenchon, em algumas sondagens, será o terceiro mais votado na primeira volta, mas distante de uma presença na de 7 de maio.

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG