Esplanadas vazias são a imagem de um sábado à noite triste

Na Place de la République, no centro de Paris, dezenas de pessoas homenageiam as vítimas e "prometem" triunfar sobre o medo

Hoje à noite, cerca de 24 horas depois dos atentados mais sangrentos na Europa nos últimos 10 anos, o Monumento à República, no centro da praça com o mesmo nome, tornou-se de forma espontânea um local de homenagem aos mortos, com dezenas de pessoas a depositarem junto da estátua coroas de flores, velas acesas, e mensagens.

Ainda com vestígios da anterior onda de horror que varreu Paris, há somente dez meses -- são ainda visíveis restos de cartazes com o famoso lema «Je Suis Charlie» -, hoje juntaram-se novas mensagens, como "Nós Somos a República, Nós Somos a Liberdade", "O Medo Não Vencerá" e "A Vida Continua", mas, pelo menos hoje, falta a alegria e a vida de um sábado à noite em Paris, como testemunharam à Lusa vários funcionários de estabelecimentos da zona.

"Normalmente a esta hora há aqui uma fila que vai até à rua, as pessoas esperam trinta, quarenta minutos por uma mesa. Hoje é isto...", diz à Lusa um empregado de mesa, exibindo com um gesto largo e desconsolado a sala quase vazia e a esplanada deserta.

"Durante o dia tivemos briefings entre os funcionários, com a preocupação de mostrarmos tranquilidade aos clientes. Mas depois do que aconteceu ontem...", acrescenta, sem necessidade de finalizar a frase.

Junto à estátua, um pequeno grupo de jovens faz tocar uma e outra vez o tema "Imagine", de John Lennon, mas na mente de muitos parisienses estão ainda as rajadas de armas automáticas e as explosões que fizeram tantas vítimas na véspera em esplanadas e cafés de Paris, assim como numa sala de espetáculos.

As conversas giram todas em torno do sucedido, e quando passa algum carro da polícia ou uma ambulância com uma sirene ligada instala-se o silêncio e todos olham com ar preocupado.

"Isto é uma tristeza, é um desespero", confidencia à Lusa um empregado de uma casa de sandes, depois de servir os dois únicos clientes presentes na altura: dois agentes da polícia, que levaram consigo o farnel para prosseguir a vigília num dos quarteirões atingidos pelos ataques de Paris, e onde se concentram hoje à noite sobretudo jornalistas, câmaras e carros de exteriores.

Numa esplanada de um bar, um jovem francês, Jonathan, explica à Lusa que fez questão de sair hoje, como habitualmente, e beber um copo, "como forma de homenagear" as vítimas dos ataques terroristas.

"Estou aqui por solidariedade. Sou aqui do bairro, e apesar de não ter perdido ninguém nos ataques de ontem [sexta-feira] sinto que devo aqui estar. Sinto cólera, e não medo, e por isso estou aqui", diz.

O grupo extremista autodenominado Estado Islâmico reivindicou hoje, em comunicado, os atentados de sexta-feira em Paris, que causaram pelo menos 129 mortos, entre os quais dois portugueses, e 352 feridos, 99 em estado grave.

Oito terroristas, sete deles suicidas, que usaram cintos com explosivos para levar a cabo os atentados, morreram, segundo fontes policiais francesas.

Os ataques ocorreram em pelo menos seis locais diferentes da cidade, entre eles uma sala de espetáculos e o Stade de France, onde decorria um jogo de futebol entre as seleções de França e da Alemanha.

A França decretou o estado de emergência e restabeleceu o controlo de fronteiras na sequência daquilo que o Presidente François Hollande classificou como "ataques terroristas sem precedentes no país".

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG