"Problemas não se resolvem da noite para o dia, nem com visita presidencial"

No dia em que Obama chega a Havana, a embaixadora de Cuba em Portugal, Johana Tablada de la Torre, disse ao DN esperar que este "consolide a sua vontade de se envolver num debate profundo com o Congresso" para o fim do embargo

O que significa para Cuba a visita do presidente Barack Obama?
Esta visita constitui um passo importante e coerente com o processo de negociações iniciado pelos presidentes de Cuba e EUA com o anúncio de 17 de dezembro de 2014 de avançar para a normalização das relações, interrompidas há quase 54 anos. Será a primeira vez que um presidente dos EUA chega a uma Cuba dona da sua soberania e com a revolução no poder. Gosto de dizer que, apesar de todo o tipo de atropelos contra o nosso país chegamos de pé a este dia. A visita faz parte do complexo processo para a normalização dos vínculos bilaterais, que está ainda no início e tem avançado com base no único terreno possível e justo: o respeito, a igualdade, a reciprocidade e o reconhecimento da legitimidade do nosso processo e do governo cubano. Cuba espera que a visita de Obama consolide a sua vontade de se envolver ativamente num debate profundo com o Congresso para o levantamento do bloqueio e que, paralelamente, continue a usar as suas prerrogativas executivas para mudar tanto quanto for possível a sua implementação, sem necessidade de uma ação legislativa.


Muito foi feito nos últimos meses para relançar as relações entre os dois países. O que falta fazer?
Falta percorrer um longo e complexo caminho, que exigirá a solução de assuntos essenciais que se foram acumulando durante mais de cinco décadas e que aprofundaram o carácter conflituoso dos vínculos entre os dois países. Tais problemas não se resolverão da noite para o dia, nem com uma visita presidencial. Falta eliminar o bloqueio, que é o maior obstáculo ao desenvolvimento de Cuba na sua máxima capacidade. Se os EUA não avançam com isto ficará sem sentido o discurso dos EUA a favor de uma mudança real na política. Falta também devolver a Base Naval de Guantánamo a Cuba e pôr fim ao financiamento de programas de "mudança de regime" que são ilegais segundo a leis dos EUA, de Cuba e do Direito internacional. Além disso, também tem de acabar o tratamento migratório preferencial que os nossos cidadãos recebem, em virtude da Lei de Ajuste Cubano e da política de pés secos-pés molhados, que causa perdas de vidas humanas, alenta a imigração ilegal e o tráfico de pessoas, além de gerar problemas a terceiros países.

Mas já foram aprovadas várias medidas para facilitar as relações, contornando a questão do bloqueio...
Sim, Obama adotou medidas para modificar a aplicação de alguns aspetos do bloqueio, que são positivas. E outras estão a ser estudadas. Contudo, não tem sido possível implementar boa parte dessas medidas por causa do seu alcance limitado, pela persistência de outras regulamentações e pelos efeitos intimidantes do bloqueio no seu conjunto, que tem sido aplicado duramente por mais de 50 anos. É contraditório que, por um lado, o governo tome medidas e que, por outro, acirre as sanções contra Cuba que afetam a vida quotidiana do nosso povo. A realidade continua a mostrar que o bloqueio se mantém e está a ser aplicado com rigor e com um marcante alcance extraterritorial, com efeitos dissuasivos para empresas e bancos dos EUA e de outros países.


Outro dos temas que ainda dividem os governos de Havana e Washington são os direitos humanos. Na visita a Cuba, Obama vai reunir-se com membros da sociedade civil, incluindo dissidentes. Como é que Havana vê estes encontros?
Os EUA devem abandonar a pretensão de fabricar uma oposição política interna, financiada com dinheiro dos contribuintes norte-americanos. Existem pessoas em Cuba que recebem fundos generosos do governo dos EUA para estimular a criação de uma oposição que responda aos interesses dos EUA. Os EUA nunca permitiriam o financiamento de qualquer indivíduo ou grupo de indivíduos para alterar a ordem constitucional que apoia a maioria em benefício de uma minoria favorita que possa ter outro Estado estrangeiro. Nós temos o nosso debate interno para melhorar mais o nosso país e o nosso direito de o fazer sem ingerência exterior. Cuba é signatária de 44 instrumentos de direitos humanos e os EUA só de 18. Temos opiniões sobre isso mas aos EUA e ao seu PIB corresponde o direito a melhorar.


O presidente Obama vai também discursar para o povo cubano. De que forma é que os cubanos estão a seguir esta viagem? Há interesse, curiosidade, desconfiança?
Obama terá a oportunidade de conhecer um povo nobre, alegre, amigável e digno, com um alto sentido de patriotismo e unidade nacional, que sempre lutou por um futuro melhor apesar das adversidades que teve de enfrentar. O presidente dos EUA será recebido por um povo revolucionário, com uma forte identidade e uma profunda e sólida cultura, que é resultado de uma longa tradição de luta por atingir a sua verdadeira e definitiva independência, primeiro contra o colonialismo espanhol e depois contra a dominação imperialista dos EUA. Um povo que não claudicará na defesa de seus princípios e da vasta obra da sua revolução.


Que mensagem aproveitará o presidente Raúl Castro para enviar?
Temos de esperar para ver.

Na agenda não está um encontro com Fidel. Ainda pode haver uma surpresa ou será impensável uma reunião entre os dois?
A verdade é que não sei.

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