"Não só Macri vai terminar o mandato, como esta é tarefa para oito anos"

Presidente argentino "está a mostrar coragem" nas medidas que está a tomar, diz o novo embaixador, Oscar Armando Moscariello, que quer reforçar os laços com Portugal

Mais de 15 anos depois do default, a Argentina voltou aos mercados. O que se segue?

Desde o primeiro dia que o presidente Maurício Macri tomou uma decisão clara, com objetivos precisos: pôr a Argentina onde merece estar. Somos um país com mais de 40 milhões de habitantes, altamente competitivo, com um nível cultural e educativo importante e com muitos recursos naturais. Não podíamos estar onde estávamos, com dificuldades e com muitos compatriotas abaixo do nível de pobreza. Em relação aos holdouts [fundos que não aceitaram renegociação da dívida], a decisão foi negociar para podermos aceder aos mercados internacionais, não só para procurar financiamento, mas também para gerar nova confiança para que os investidores e empreendedores possam fazer negócios de portas abertas, gerando oportunidades.

E correu muito bem...

Temos uma enorme satisfação por duas razões. Primeiro porque queríamos 12,5 mil milhões de dólares para solucionar o problema da dívida e tivemos ofertas de quase 70 mil milhões. Deve ter sido a colocação de dívida mais bem-sucedida de um país emergente. Depois, porque recebemos a visita de dignitários mundiais, como o presidente dos EUA Barack Obama, que com a sua presença aprovaram muitas coisas que estamos a fazer. é uma mostra de confiança no novo tempo na Argentina. Também temos que pensar que isto foi feito com consenso no Congresso, onde Macri não tem a maioria. Mas a maioria compreendeu que o país tem que percorrer outros caminhos, que vão dar prosperidade ao povo.

Foi um corte com o passado e com dez anos de kirchnerismo.

Foi um corte com as políticas que consideramos equivocadas. Há medidas que o meu país está a adotar que são dolorosas, que geram angústia, mas o presidente tomou outras para que os setores mais vulneráveis da sociedade estejam protegidos - isentou de IVA o cabaz de bens de primeira necessidade, aumentou a bolsa por filho para mais setores da população... A grande batalha da Argentina é a inflação, mas parece que em junho já vamos ter indicadores que mostram que estamos no bom caminho e que essa batalha vai ser ganha. De tal maneira que há um compromisso público do presidente de chegar a níveis de inflação em zero.

Mas muitas das medidas têm causado mais inflação, houve aumento dos preços da energia, água, transportes. E isso reflete-se nos bolsos das pessoas e na popularidade de Macri, que está a cair...

Não há nada que mostre que o presidente está a perder popularidade. Ele está a jogar a sua credibilidade pública. Está a mostrar coragem em todas as medidas que tem que tomar. Mas são medidas que geram preocupação ou angústia, porque às vezes não vão tão depressa como os movimentos dos preços. Mas eram necessárias.

Acredita que Macri vai ser o primeiro presidente não peronista a acabar o mandato na Argentina?

Não só vai terminar o mandato, como esta é uma tarefa para oito anos. Penso que vamos vencer esse sobe e desce permanente na história argentina: quando acreditamos que alcançámos um nível de sustentabilidade no funcionamento da nossa economia caímos novamente num poço de ar que, lamentavelmente, não se coaduna com o que somos de verdade.

A ex-presidente Cristina Kirchner juntou uma multidão quando respondeu em tribunal por um dos processos em que está envolvida. Foi uma mostra de poder?

Na democracia é necessário ter pontos de vista diferentes, desde que enriqueçam o debate. Que Kirchner, depois de dez anos, tenha um grupo de seguidores parece-me normal e lógico. Porque representa uma ideologia, um setor da sociedade. Quanto aos processos, dizia-se que havia uma justiça kirchnerista e o presidente não quer que exista uma justiça macrista, mas uma justiça independente. E se há funcionários da anterior administração que têm que prestar contas, terão que o fazer nos tribunais, independentemente do executivo ou legislativo. A Argentina é um país democrático e precisa que a divisão de poderes não seja letra morta na constituição, mas valor e princípio vivo da sociedade.

Mas não são só nomes do anterior governo de que se fala. E até o presidente Macri viu o seu nome envolvido nos Papéis do Panamá...

Em relação aos Papéis do Panamá, desde o primeiro dia que o presidente se pôs à disposição da justiça. As empresas que apareceram foram declaradas ao fisco. Foram criadas pelo pai do presidente que nunca as operou. Em relação à luta contra a corrupção, ,Macri lidera uma coligação na qual convivem distintos setores e há clara decisão de ter uma justiça independente.

Chego há pouco tempo a Lisboa. Quais são os seus objetivos?

Não conhecia Portugal e estou muito satisfeito. Encontrei um país que tem uma longa história, que tem um povo respeitoso e educado. Os nossos objetivos são os mesmos dos portugueses. A Argentina e Portugal têm laços culturais e comerciais e relações bilaterais desde a independência do meu país. Portugal foi o primeiro a reconhecer a independência da Argentina. Acreditamos que, apesar disso, nenhum dos países está satisfeito com o que já fizemos e queremos mais.

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