Seixas da Costa: "O Ocidente só intervém quando os factos são muito chocantes"

Conhecedor da França, o antigo embaixador de Portugal em Paris não acredita numa intervenção militar no terreno, em resposta aos atentados.

Viveu quatro anos em Paris e conhece bem a comunidade portuguesa em França. Como viu os atentados de sexta-feira?

Com relativa surpresa, porque pensei que as medidas de segurança implementadas depois do Charlie Hebdo, sendo claro que França é um alvo do Estado Islâmico, impedissem ataques assim. Que fosse possível montar linhas de segurança mais eficazes. O que se vê aqui é uma dimensão altamente sofisticada de terrorismo e que representa uma rede muito forte e articulada dentro de França. São pessoas, franceses de segunda geração, que não se sentem afetivamente ligados a França, que têm uma pátria distante ligada ao Estado Islâmico. Percebemos também, com isto, que França é permeável - há pessoas que fazem várias vezes a viagem de ida e volta aos países do terrorismo. E é surpreendente que os serviços secretos não consigam travar esta evolução.

Mas não há informação suficiente a circular?

A situação europeia é problemática. Não sabemos onde isto vai parar, porque vários países já articulam informação: devíamos estar mais preparados. Houve vários casos de chamados lobos solitários - mais difíceis de controlar, são infiltrados, com uma ação individual ou organizados em grupos muito pequenos. Mas esta é uma estrutura muito forte, que ataca em vários locais e com uma eficácia extraordinária.

Pensa que há risco de novos ataques em breve?

França é claramente um alvo, mas há outros países europeus permeáveis. A experiência mostra-nos - vale o que vale - que após um ataque muito grande há um período de acalmia - seria difícil planear outro ataque. Mas nada é garantido - há pouca racionalidade nisto tudo.

Que resposta deve a Europa dar? Uma resposta militar?

A tentação automática - foi assim no 11 de Setembro - é a ação coordenada, que é legitimada pelo impacto destes atentados, nas zonas de origem destes movimentos. Mas não acredito que os países mais poderosos queiram pôr tropas no terreno. Até agora, têm feito a luta à distância e em coordenação com países como a Turquia e a Rússia. Não me parece que haja ação militar.

Mas o que se devia fazer?

O que este caso devia suscitar era reflexão e uma ação concreta sobre o isolamento interno do Estado Islâmico, em particular dirigido ao financiamento do movimento, à venda de petróleo, de antiguidades. Há uma cumplicidade manifesta dos países limítrofes com o EI. É preciso refletir sobre a complacência que temos com os países da região que não fazem tudo o que podem no combate ao terrorismo, nomeadamente os do Golfo. Somos exigentes, por exemplo, com a Rússia - e bem - no respeito para com o Estado de direito, mas com a lapidação de mulheres ou o corte de mãos não têm o mesmo rigor. Há uma espécie de realpolitik que faz os países do Golfo manterem a impunidade e não há reação aos atentados aos direitos do homem e da mulher, aos ataques ao Estado de direito. Parece que serem nossos aliados os torna imunes à crítica.

O que se vê aqui é uma dimensão altamente sofisticada de terrorismo

Mas não basta refletir...

As situações regionais têm de ser dirimidas regionalmente. A presença ocidental funciona como uma permanente intromissão. Há uma guerra intramuçulmana de que não se fala, entre sunitas e xiitas, e que passa no meio da Síria, mas são os regionais que têm de encontrar respostas para os seus problemas. A presença aliada, mesmo com um papel apaziguador dos excessos do EI, será vista como uma intromissão. Por outro lado, o Ocidente só intervém quando as coisas se tornam muito chocantes. Todos os dias morrem pessoas na Líbia, na Síria, morreram no avião russo, mas só acordamos quando as mortes são no nosso mundo. A morte dos outros também vale...

Um dos terroristas era filho de portuguesa. Como vê as relações entre europeus e muçulmanos?

Muitos dos cidadãos portugueses em França são franceses também, e sobretudo estão sujeitos às mesmas tentações, inclinações e agendas radicais. Pela exclusão, pelo desemprego e pela atração por um poder exterior que dá um sentimento de vida são capazes de ser mobilizados. França, que é notável pela sua capacidade de integração - que outro país teria um primeiro-ministro que foi espanhol? -, tem grande dificuldade em criar modelos de integração para a sua comunidade islâmica. E tem o seu inimigo dentro de si. É difícil proteger-se sem uma cultura de suspeita pelo vizinho. O objetivo do terrorismo é mudar a nossa vida pelo medo. Aconteceu nos EUA depois do 11 de Setembro: a sociedade americana trocou a privacidade pelo securitarismo. França não o fez no Charlie Hebdo. E agora fará? Dificilmente, porque tem uma ligação profunda à liberdade, à afirmação da liberdade, não compaginável com uma natureza securitária. Mas este drama pode ter resultados imprevisíveis.

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