"Ceticismo em relação a Temer é positivo para criar agenda realista"

Entrevista a Luiz Felipe d'Avila, diretor-presidente do Centro de Liderança Pública, em São Paulo

Acha que a democracia brasileira saiu a ganhar nesta votação?

Sim, saiu a ganhar. É uma prova de que, apesar de toda esta crise política, as instituições funcionam bem.

Mas a votação parecia mais um circo do que um Congresso...

E é. Porque era uma votação aberta, transmitida pela televisão, onde cada um estava falando para a sua plateia, os seus eleitores, e não queria perder o momento histórico. Era uma conversa com o seu partido, com as suas lealdades políticas e locais. Isso é o lado da imaturidade de alguns partidos que ainda personalizam a questão. É o nosso gosto pelo populismo. Precisamos amadurecer e entender que as instituições estão acima das pessoas.

Eram precisos 342 votos e tiveram 367. O processo sai reforçado?

Foi uma vitória esmagadora. As sondagens mostram que no Senado também há os votos necessários e a partir daí a presidente será afastada por 180 dias e o vice-presidente Michel Temer assume o poder. Não podemos esquecer que o impeachment é um julgamento político. Há a questão jurídica, a violação da lei do orçamento, mas acima de tudo é uma questão política, da situação dramática em que se encontra o país.

Não podemos esquecer que o impeachment é um julgamento político

A presidente Dilma ainda tem forma de evitar o impeachment?

É muito difícil. O desgaste da presidente com o Parlamento não se iniciou com o impeachment. É algo que vem dando sinais evidentes ao longo do mandato. Ela tem muita dificuldade na articulação política e trata muito mal os aliados. Então, agora vai ser muito difícil ela negociar. Eu vejo pelo PMDB, que foi sempre fiel à base, como ele se sente desprestigiado neste processo todo.

O que pode Temer trazer de novo?

A escolha do gabinete será um excelente sinal do caminho que ele vai trilhar. Um caminho é o do fisiologismo, juntar as bases aliadas e distribuir cargos e aí vamos pelo mau caminho. Outro é tentar reunir figuras notáveis, acima dos partidos, para se tomarem as medidas difíceis que temos que tomar para reverter essa trágica situação económica e institucional em que o Brasil se encontra. A meu ver, Temer deve ter uma agenda muito realista para os próximos dois anos, focada em reformas que podem gerar emprego, movimentar a economia e resgatar o crescimento económico.

Temer deve ter uma agenda muito realista para os próximos dois anos

Mas já se fala em afastar Temer...

Eu acho que, em momentos de crise, governos que começam com baixa expectativa da população têm mais chance de dar certo se fizerem as boas escolhas. Esse ceticismo em relação a Temer é positivo para se criar uma agenda realista. Quanto à possibilidade da chapa PMDB e PT ser caçada no Tribunal Superior Eleitoral, esse é um risco. Se houver condenação até ao final do ano, haverá novas eleições. Se for a partir de janeiro, são indiretas. Quem elege o presidente é o Congresso.

Que papel tem e pode ter o ex-presidente Lula no meio de tudo isto?

Infelizmente está a ter um papel lamentável. Ele deixou a presidência com 86% de popularidade, deveria preservar isso, mas acabou entrando em negociações nesta reta final da votação, que não só denigrem a sua imagem, mas a sua história no Brasil. E ainda corre o sério risco, pelo processo Lava-Jato, de ser preso.

E se for candidato em 2018?

É difícil perceber. Fizeram uma sondagem e, evidentemente, Lula aparece como um candidato importante. Mas o mais interessante é o índice de rejeição: 54% das pessoas rejeitam lula e dizem que não votam nele de maneira nenhuma. Num momento de descontentamento, é importante entender se essa rejeição cresce com o tempo ou se ela reduz. Isso vai depender muito do desempenho do governo Temer.

O PSDB ficou a três milhões de votos do PT. Qual é agora o plano?

O PSDB, querendo ou não, estará com o destino atrelado ao sucesso do Temer. Porque terá que o apoiar e a sua sorte política dependerá do desempenho dele.

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