"Existe um sentimento geral contra o establishment"

O analista político Thomas Hofer culpa os principais partidos pelo crescimento da extrema-direita austríaca

Que previsão faz para o resultado das presidenciais de amanhã?

É uma corrida aberta. Não vou fazer projeções. Norbert Hofer vem de uma primeira volta muito forte, com 35%. O caminho que tem de percorrer até à vitória é muito mais curto do que o de Van der Bellen. Neste momento existe um sentimento muito forte contra o establishment político e isso joga a favor de Hofer. A crise dos refugiados também desempenha um papel, mas não lhe daria mais importância do que aquela que ela tem. Há outros fatores que são decisivos para este sentimento anti-establishment.

Que fatores são esses?

Existe a perceção de que os dois principais partidos nada fizeram, desde que estão juntos no governo, para concretizar reformas ou para evitar o agravamento de alguns problemas, como o desemprego [cerca de 9%]. A atmosfera não é positiva e as pessoas atribuem as culpas à coligação. Isso abre esta oportunidade para o FPÖ. Não quero fazer previsões - até porque há muita gente, especialmente em Viena e nos principais centros urbanos, que não quer a vitória do Partido da Liberdade -, mas acho que, em muitas regiões, vamos assistir a um grande movimento de apoio a Hofer.

O jornal Washington Post apelidou Norbert Hofer de "o Donald Trump da Europa". Parece-lhe uma comparação justa?

Seria mais correto comparar o FPÖ, em termos gerais, com o Donald Trump. O caráter de Hofer é muito diferente do de Trump e nesta campanha ele suavizou bastante o tom mais provocatório. Não apareceu como um extremista e essa foi uma das chaves do seu sucesso. Continuou a fazer afirmações duras, mas com um tom baixo e amigável. Em vez de atacar quem vem de fora, o FPÖ agora prefere dizer: "Estamos aqui pelos austríacos". A mensagem é a mesma, só que muito menos agressiva. Trump e Hofer não são iguais, mas julgo que a principal razão para a ascensão de um e de outro é a mesma: a descrença generalizada no establishment.

Podemos extrapolar para as próximas legislativas esta força do FPÖ?

O FPÖ também lidera nas sondagens para as eleições gerais. Se Faymann, o ex-chanceler não se tivesse demitido, julgo que o FPÖ não daria hipóteses. Kern - aquilo que conseguir como chanceler - é a última oportunidade que o SPÖ e o ÖVP têm para continuar na corrida.