"Entre os países mais convencidos da utilidade da Europa estão Espanha e Portugal"

Marcelino Oreja vai receber amanhã, Dia da Europa, das mãos do rei Felipe VI o Prémio Europeu Carlos V.

O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol, que há 40 anos pediu a adesão do país à CEE, foi o escolhido neste ano pela Academia Europeia de Yuste, sedeada no convento da Extremadura onde morreu o grande imperador do século XVI que dá nome ao prémio. O DN entrevistou Oreja, também antigo comissário europeu, no seu gabinete na Universidad CEU San Pablo.

O senhor foi o ministro dos Negócios Estrangeiros que apresentou a candidatura da Espanha à Comunidade Económica Europeia (CEE) em 1977. Qual a importância desse passo para um país que estava ainda a fazer a transição da ditadura para a democracia?

O rei, no discurso de 22 de novembro de 1975, quando assume as suas responsabilidades como chefe do Estado, envia uma mensagem muito clara de que a nova Espanha terá de abordar o tema da sua integração nas instituições europeias. É uma mensagem inequívoca. E a mim impressionou-me. Quando li aquele texto pareceu-me que era o reflexo de uma vontade muito convicta que tinha antecedentes no acordo comercial preferencial que a Espanha assinara em 1970, muito favorável aos nossos interesses, e que previa mais duas etapas, de seis anos cada, mas apenas no campo económico, pois não era possível avançar do ponto de vista político nas instituições europeias, já que a Espanha de então não reunia as condições de um Estado democrático. Impressionou-me a vontade que o rei expressava, num contexto muito especial, pois passavam apenas 48 horas do falecimento do anterior chefe do Estado.

Está a referir-se à primeira comunicação de Juan Carlos depois da morte de Francisco Franco, certo?

Franco morre a 20 de novembro de 1975 e a 22, nas Cortes, há uma mensagem do rei. E foi uma mensagem marcada por duas tomadas de posição claras: uma a favor da Europa, outra a favor do reconhecimento das diferenças nas várias regiões espanholas. Falou mais, mas estes dois temas chamaram-me a atenção. É que ambos me afetavam: uma como europeísta e a outra como basco.

Como lhe chega a tarefa de concretizar o plano europeísta de Juan Carlos?

No primeiro governo pós-Franco foi nomeado como ministro dos Negócios Estrangeiros um grande europeísta, José María de Areilza, que me convidou a trabalhar com ele como adjunto. Naquela época dedicávamos muito tempo aos assuntos europeus e acompanhei o ministro em viagens a países comunitários, mas estávamos bem conscientes de que tinha de haver ainda grandes mudanças para que a Espanha pudesse pedir a adesão. Mas era importante sublinhar que tinha já havido uma mudança e que havia vontade de participar nas instituições europeias. Areilza saiu e, em julho de 1976, passo a ministro no novo governo de Adolfo Suárez. Naquele momento eu tinha, como membro do governo, duas preocupações: uma dizia respeito aos direitos humanos e liberdades fundamentais. E nesse sentido visitei as Nações Unidas e vinculei-me ao protocolo de respeito dos direitos humanos. E a partir daí o norte que me orienta são as instituições europeias, mas Espanha continuava sem ser um país democrático. Finalmente, o sinal mais claro que damos à Europa foi a lei para a reforma política, aprovada em referendo em setembro de 1976. Encaminhava-se assim a Espanha, graças a negociações com várias forças políticas, algumas por legalizar, para a realização de eleições democráticas, que aconteceram em junho de 1977.

Como era a atitude perante a CEE no governo de Suárez. Havia consenso?

Sem dúvida. Recordo-me quando fui chamado por Adolfo Suárez, a quem não conhecia, para ser seu ministro, lhe perguntei: "E quem vai fazer parte do governo?" Deu-me uma resposta muito dele: "Os teus amigos." E era verdade. Naquele governo, mais de metade eram pessoas que tinham formado parte do grupo Tácito, intelectuais católicos que defendiam a mudança democrática.

Está a falar de uma corrente intelectual que veio do campo franquista mas com vontade reformista?

Sim, uma vontade reformista muito clara. Sabíamos que o franquismo estava a dar o último suspiro e era preciso uma rutura, uma mudança drástica.

A candidatura à CEE, por sua vez, foi importante para a consolidação da transição para a democracia?

Sim, era um passo lógico, mas para isso era necessário primeiro que houvesse eleições democráticas. Todas as forças políticas participaram, incluindo os comunistas, que tinham sido legalizados no sábado santo anterior.

É verdade que Suárez escolheu legalizar o PCE na Páscoa porque muitos militares estavam de fim de semana e, portanto, seria mais difícil uma reação dos ultras do franquismo?

Era igual fazer na Páscoa ou noutro dia.

Mas foi um ato de coragem política?

Sem dúvida alguma. E muito necessário. Sem a legalização do Partido Comunista teria havido muitas resistências dos socialistas a participar na transição. E mesmo da parte dos partidos nacionalistas.

Conheceu Santiago Carrillo?

Sim.

E concorda com a ideia de que esse líder histórico do PCE, já ativo na Guerra Civil de 1936-1939, aprendeu com os erros do seu próprio passado e deu grande contributo à democracia?

Creio que sim. Não discuto os atos lamentáveis que lhe são atribuídos nos anos críticos da Guerra Civil espanhola. Mas é evidente que mudou. E colaborou ativamente para que a Espanha se tornasse um regime democrático. Carrilho teve uma boa relação com Suárez. E quando Suárez e ele negociaram foram muito sensatos. Como também o foram o socialista Felipe González e os líderes dos partidos bascos e catalães. Pelo bem da Espanha. Há ainda outra pessoa muito importante, Fraga Iribarne. Foi ministro de Franco, mas entendeu que tinha de haver mudança e colaborou para integrar a direita.

O pedido de adesão à CEE ao mesmo tempo que Portugal, era primeiro-ministro o socialista Mário Soares, ajudou às relações com o vizinho, onde a democracia chegou através da revolução, não por uma transição negociada?

Foi um momento de boas relações. Tinham acabado dois velhos regimes que tinham paralelismos, agora havia duas nações a construir a democracia. Recordo a visita do rei a Portugal, que foi um êxito enorme, e também a de Soares e do presidente a Espanha. Foi um momento em que a colaboração e a coordenação foi grande entre os dois países.

Crê ter sido importante que o esforço de adesão à CEE tenha sido feito por Portugal e Espanha em simultâneo?

Foi bem pensado fazê-lo ao mesmo tempo, e a prova disso é que a Grécia foi logo tratada em separado, por causa de um presidente francês que via Espanha como um problema, já não por questões políticas como antes mas agora por motivos económicos. Havia dúvidas sobre as ajudas que Espanha pediria.

Um país muito grande para integrar?

Sim. Era mais fácil integrar Portugal e ainda mais a Grécia. Acelerou-se o processo grego, em 1981, e ficaram por resolver as candidaturas de Espanha e Portugal. Cada um seguiu o seu caminho, mas de forma concertada com o outro. Giscard D"Estaing enquanto foi presidente pôs entraves e Jacques Chirac, quando era ministro da Agricultura, chegou a dizer que era intolerável que Espanha entrasse na CEE porque seria um perigo para a agricultura francesa.

A chegada dos socialistas ao poder na França, em 1981, com François Mitterrand, que era amigo de Mário Soares, ajudou Portugal e Espanha?

Foi positivo. Mitterrand, que tinha também boa relação com Felipe González, que chegou ao poder em 1982, foi desbloqueando o processo. Até junho de 1985, quando assinámos a adesão.

Mesmo com o problema da crise financeira e da dívida, crê que a maioria das pessoas em Espanha continuam interessadas do projeto europeu?

Há uma atitude, habitual quando se está há muito tempo num local, de ver às vezes só as coisas más e não as boas. Mas acredito que há um sentimento maioritário europeísta. É um dado adquirido a nossa pertença à União Europeia. Ao fim de tantos anos sentimo-nos plenamente europeus e queremos participar de forma efetiva. Todos os países têm algumas razões de queixa, mas creio que entre os países que se sentem mais convencidos da utilidade das instituições europeias estão a Espanha e Portugal.

Falemos um pouco da política atual em Espanha. Crise do bipartidarismo, novos partidos. Crê que a Espanha é um laboratório político da Europa? De um modo até positivo, porque não existem populismos de extrema-direita.

Aquilo que existe são dois partidos, o PP e o PSOE, que ocupam o centro político e que podem juntos avançar nos grandes temas, mesmo que tenham diferenças entre si. Ao mesmo tempo sim, não há partidos de extrema-direita, apenas alguns movimentos. Há também um partido que nasceu há pouco e sobre o qual não posso opinar porque pouco sei dele, que é o Ciudadanos, que tem uma ideia centrista, mas o centro também é ocupado pelo PP, por isso teremos de ver como se desenvolve no futuro. E há um partido de esquerda novo, distinto dos da esquerda clássica...

Fala do Podemos?

Sim. O Podemos é um fenómeno que se produziu também noutros países, noutras direções. São partidos que não sabem o que querem, não têm um norte, não tem propostas claras. É uma incógnita muito grande qual será o seu futuro.

Acredita que o PSOE tem condições para se manter como a força estruturante da esquerda espanhola?

Sim, e desejo-o. Espero que o PSOE continue o partido mais representativo da esquerda. Agora tem uma comissão gestora que trabalha bem e já existem candidatos a secretário-geral. Veremos.

Que opinião tem de Mariano Rajoy? É um sobrevivente? Depois de duas eleições que ganhou à justa, lá se impôs de novo como primeiro-ministro.

Creio que Rajoy tem condições para liderar Espanha. Sou de uma época muito anterior à dele no PP e por isso não tivemos ocasião de colaborar de perto, como colaborei com Suárez e José María Aznar, mas penso que é uma pessoa que tem uma grande virtude, que é a prudência. Se um homem público fica nervoso põe o país nervoso e por isso nas eleições seguintes o país deixa-o cair. Rajoy tem algumas ideias claras. Creio que é um líder que à medida que o tempo passa ganha peso junto da opinião pública, porque a prudência é necessária, mas ao mesmo tempo sabe tomar as decisões.

Vem de um família basca. Preocupa-o a força dos nacionalismos?

Sou basco, toda a minha família é basca. Todos os meus apelidos, e são muitos, são bascos. Isso permite-me, melhor do que outros do Partido Popular, compreender as medidas que adota o Partido Nacionalista Basco. Tenho uma atitude de maior compressão das diferenças, desde que dentro da unidade da Espanha. Creio que neste momento existe um presidente basco que está a agir bem. É também um homem prudente, que tem consciência do que está a fazer pelo País Basco, mas ao mesmo tempo tem uma visão mais ampla e quer encontrar um acordo geral.

Isso é uma crítica aos líderes catalães?

Sem dúvida. Estou muito preocupado. Os partidos com que me relacionei, os da velha Convergência e União, mudaram. Sinto-me democrata cristão, como muitos no PP, e os partidos catalães de direita eram muito próximos de nós. Uns mais liberais, outros mais democratas cristãos, mas com os quais tínhamos pontos em comum. Ora, isso já não existe por causa destes radicalismos que me preocupam. Revelam uma insensatez que no final não conduzirá a nada mas perturba a vida política.

Que significa receber o Prémio Carlos V neste momento em que a UE, abalada pelo brexit, celebra os 60 anos?

É uma grande emoção. Não esperava. Conheci todos os anteriores premiados e ainda há tempos, conversando com o diretor da fundação, dizia que assisti a todas as entregas, porque desde o início estive na criação da Fundação Europeia de Yuste. É um prémio importante.

Em Madrid

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG