"Com este cenário, se houver novas eleições em Espanha as pessoas não vão votar"

Jornalista, escritor e analista, Fernando Jáuregui conhece bem Portugal, onde foi correspondente no 25 de Abril. Não compreende porque o PSOE pretende repetir a solução à portuguesa quando o contexto espanhol é tão diferente.

Com os resultados das eleições de 20 de dezembro, era previsível a situação política em Espanha nestes três meses?

Todos prognosticámos que os resultados iam deixar um panorama ingovernável, a não ser com acordos. Mas ninguém imaginava a inabilidade da nossa classe política para levar isto avante, os egoísmos e as incapacidades, os vetos... Alguns deles estão a demonstrar ser uns novatos e outros que só se mexem por interesse pessoal ou partidário.

Quais são as consequências desta situação?

As três consequências mais indesejáveis são: primeiro, o desgaste da imagem do rei; segundo, a fragmentação dos partidos porque uns querem uma coisa e outros o contrário, como a última situação do Podemos, que não é o único dividido; e terceiro, está a crescer o distanciamento dos espanhóis com os seus representantes políticos. Estão a ficar indiferentes à classe política e depreciam-na cada vez mais. Com este cenário, se houver novas eleições as pessoas não vão votar. Elas perguntam-se para que serve o governo porque sem ele a vida continua. E isso é muito mau porque em Espanha toda a atividade empresarial depende das administrações públicas, sujeitas ao curso político. Não acontece em países como Bélgica, onde há uma administração mais independente politicamente. Além disso, temos de somar uma separação entre os poderes legislativos e executivo, que acaba de surgir porque o presidente do governo espanhol não quer ir explicar os resultados do Conselho Europeu sobre o tema da imigração.

Porque é que Rajoy não abandona a liderança do Partido Popular?

Rajoy está a arriscar perder um bom lugar na história. Se ele se afasta, como todos estão a pedir (mas ninguém na sua cara), aplaudiriam a sua decisão. Rajoy, numa concatenação de erros que estão a ocultar os seus muitos acertos, está agarrado ao leme porque pensa que é indispensável. Não vê que os cemitérios estão cheios de imprescindíveis que pensavam sê-lo. Está a bloquear a situação. Entre alguns dos seus erros está não ter feito coincidir as eleições gerais com as catalãs, em setembro, porque evitava este período que estamos a viver. Também fez mal em não se submeter ao debate de investidura, porque mesmo sem ganhar na votação seria ele quem devia estar a negociar com outros partidos. E também não fez política, aparece abandonado. No outro dia, em Pontevedra, parecia Madoff depois de sair da prisão. Rajoy resignou-se à sua sorte. Não o diz e também não o reconhece perante si próprio. No PP estão convencidos de que vamos ter novas eleições e há uma evidente apatia.

Pedro Sánchez jogou limpo?

Sim, ele não tentou convencer ninguém que tinha a maioria suficiente para a investidura. Mas acreditava nisso. Pensou que podia ter o apoio de Ciudadanos, IU, uma parte do Podemos (Compromís), alguns deputados das Mareas, o PNV, Coligação Canária e a abstenção do Podemos. Esperava ter 143 votos a favor, a abstenção do Podemos e 142 contra. E acabou por ser a primeira vez que um candidato à investidura perde e ainda por cima com uma maioria absoluta de nãos. Parece pouco razoável a insistência de Pedro Sánchez em "nunca jamais" negociar com a direita para fazer uma coligação. Anda à procura de uma solução à portuguesa que não é a solução espanhola. Portugal não tem um handicap como nós temos, umas ameaças à unidade territorial muito importantes e isso deve ser gerido por um governo central forte que fale com eles. Fazemos uma dicotomia errónea: se és de direita, queres a grande coligação, se és de esquerda, o acordo com o Podemos. E não é bem assim. Eu sinto-me mais de esquerda e não quero um acordo com o Podemos porque não tem capacidade para governar.

Qual é a saída para os socialistas?

Convencer o Podemos a abster-se. Mas o Podemos está a dividir-se. Os que querem e os que não querem.

Qual é o partido mais prejudicado nas negociações?

Neste momento, o Podemos. Mas tudo pode mudar. E o mais beneficiado é o Ciudadanos, que está a jogar com a esquerda e a direita.

Seria possível ter à mesma mesa Ciudadanos e Podemos?

Impossível. Eu não quero um governo assim, porque seria um galinheiro. Prefiro ter um governo em funções a ter um que não funcione. O que quer Sánchez? Chegar à Moncloa com quem for e como for. Pablo Iglesias quer a vice-presidência do governo, em que vai juntar os serviços secretos, a defesa, os meios de comunicação públicos, uma espécie de secretaria de Estado contra a corrupção. Isso é bolivarianismo, uma tomada do poder.

As eleições são o mais lógico?

Sim, mas não são o melhor. Bem, eu até já tenho dúvidas, porque um acordo do PSOE com um Podemos fragmentado não sei como acabaria. A única solução que vejo é a grande coligação, mas para isso Rajoy deve ir-se embora, o PP assumir um programa reformista e Sánchez sair ou virar 180º. Mas o PSOE quer desgastar o Podemos para ficar com os seus votos. Há uma lei eleitoral injusta, em que podes ter mais votos e menos deputados. Estamos a desgastar a figura do rei, a quem tínhamos de guardar um pouco de respeito. Mas junta-se tudo. Temos a tempestade perfeita. Os partidos, as instituições e o rei... tudo se está a desmoronar.

A vida continua, mas quais os riscos de prolongar um país sem governo?

Há um risco moral, de que as pessoas se afastem da política e deixem de votar. E há o risco territorial, com eleições em outubro no País Basco, a situação de Catalunha e a que pode aflorar na Galiza. E os riscos económicos, sem esquecer que a marca Espanha está a perder força.

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