Carlos Kawall: "As chances de que haja uma saída antecipada do governo de Dilma cresceram muito"

O ex-economista chefe do Citigroup Brasil, que assumiu a pasta do Tesouro no primeiro governo de Lula, entre abril e dezembro de 2006, acredita que governo de Dilma vai cair

Como está a crise política a ser vivida aí e qual é a expectativa de desfecho deste momento

Estamos esperando o desfecho da crise política. Nas últimas duas semanas a crise aprofundou-se e hoje a expectativa da maioria dos analistas é que possa haver o processo de impeachment da Dilma. Como todos sabemos que essa é uma crise de governabilidade, temos de aguardar o que vai acontecer nos próximos dois meses. A resolução da crise política é indispensável para que avancemos nas reformas e para conseguirmos resolver a crise económica.

Tendo sido secretário do Tesouro, acredita ser essencial deixar cair o governo de Dilma para resolver os problemas económicos do Brasil?

O que o Brasil enfrenta tem paralelos com o que Portugal viveu após a crise recente: a necessidade de reformar o sistema de previdência social, de reduzir os privilégios no setor público para reduzir o gasto do Estado e conter a escalada da dívida. Há semelhanças nessa necessidade de adequar o orçamento público à capacidade da receita. E isso envolve retirar privilégios e acabar com exageros que temos na nossa legislação de proteção social, que geram desequilíbrios muito grandes num país que já tem uma carga tributária muito elevada. Não há espaço para subir os impostos, temos de atacar o lado da despesa. A maioria dos analistas concorda que esse tipo de agenda de mudança não é compatível com o atual governo, que tem uma credibilidade muito baixa quer pela situação económica quer pelo escândalo de corrupção. Este governo tem a sua base nos sindicatos e nos servidores públicos, que seriam os principais afetados por essa agenda de reformas.

E acredita que Dilma cai?

Estamos vivendo um impasse político e económico, mas também muito ligado ao escândalo de corrupção que atingiu agora o coração do governo. As chances de que haja uma saída antecipada desse governo cresceram muito. É difícil isso acontecer num regime presidencialista, como nosso - em Portugal é mais fácil um governo cair, aqui é bastante traumático. Mas já aconteceu e poderá ocorrer agora.

E a economia como vai reagir a essas mudanças?

A economia contraiu-se 3,8% no ano passado e neste ano deve ser em torno de 4%. Vai depender da solução da crise e de como se restaura a confiança. Há duas ou três semanas as bolsas estavam muito deprimidas, mas agora, com a hipótese de transformação política e da saída do atual governo, a bolsa subiu. Temos tido muita volatilidade dos mercados e da moeda, hoje foi a euforia em função dos acontecimentos políticos muito marcantes que vivemos, com a revelação das conversas entre Dilma e Lula, que colocam o governo numa situação muito difícil. Isso aumentou a sensação de que o impeachment pode acontecer. Já foram eleitos os representantes da comissão, os prazos arrancaram e a primeira votação, na câmara dos deputados, deve ser já no fim de abril ou início de maio.

É um momento de viragem?

É, não parece possível o atual governo recuperar. Há um conflito bastante grave entre o governo e o poder judiciário, por um lado, e por outro o legislativo, que começa agora o processo de impeachment. São momentos decisivos da história do país. As manifestações têm crescido de intensidade, a Avenida Paulista está bloqueada desde quarta à noite, em protesto contra governo, tudo isso lembra muito o momento que levou ao impeachment de Collor, em 1992. Infelizmente estamos vivendo uma crise económica gravíssima, a mais séria da nossa história, e uma crise política, social e ética sem paralelo. Todos veem com muita tristeza estes acontecimentos, mas agora estamos torcendo para restaurar a governabilidade e para que se consiga consenso no parlamento para lançar as reformas estruturais que precisamos para relançar o crescimento. Ainda temos uma longa jornada pela frente.

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