Entre a queda do petróleo e a decadência da era Bouteflika

A avançada idade do presidente e os desafios económicos criados pela baixa da receita petrolífera colocam o país num impasse

Os tempos vão difíceis na Argélia. As campainhas de alarme soaram em fevereiro quando foi divulgada uma mensagem do presidente Abdelaziz Bouteflika advertindo os seus compatriotas para a absoluta necessidade de serem comedidos nas despesas. A começar pela despesa pública. Os preços do petróleo tinham caído 70% em menos de dois anos, o que não podia deixar de afetar um país que depende da receita petrolífera para tudo.

O petróleo e o gás natural representam mais de 95% das receitas em divisas da Argélia (um dos dez países do mundo mais dependentes destas), indispensáveis para o pagamento das importações de produtos de consumo e bens alimentares. A receita do petróleo corresponde a 40% da receita do Orçamento de Estado.

"Estamos em condições, atualmente, de gerir a queda brutal dos preços de petróleo, que caíram cerca de 70% em menos de dois anos", lia-se na mensagem de Bouteflika, cuja divulgação coincidiu com o duplo aniversário da nacionalização da indústria dos hidrocarbonetos (em 1971) e da criação da central sindical nacional, UGTA (1956).

Na mensagem, Bouteflika sublinhava a necessidade de "rigor" na "gestão dos recursos públicos" e na "racionalização das nossas opções financeiras". O presidente anunciava ainda como "prioridade nacional" o desenvolvimento das energias renováveis para conter a despesa com as formas de energia tradicionais, que representam ainda quase 100% do consumo doméstico e empresarial.

A receita do petróleo é fundamental para manter a paz social num país de 40,4 milhões de habitantes, onde a maioria da população tem menos de 30 anos e o desemprego é particularmente elevado entre aqueles que procuram o primeiro emprego. Em 2015, a taxa de desemprego foi de 11,2%, mas de 29,9% entre os menos de 30 anos.

O governo tomou, entretanto, uma decisão corajosa iniciar a revisão do sistema de subvenções públicas aos produtos de primeira necessidade, eletricidade e combustíveis, tendo aumentado estes últimos em cerca de 40%. Este valor não deve, contudo, impressionar, pois o preço anterior era extremamente baixo.

A quebra na receita do petróleo influenciou, naturalmente, o nível das reservas argelinas em divisas, tendo o governador do banco central, Mohamed Laksaci, afirmado em dezembro que, no final do corrente, aquelas "não serão mais de 100 mil milhões de dólares". O que corresponde a cerca de dois anos de importações, a valores atuais.

Por seu turno, a balança comercial terá um défice de 26,4 mil milhões de dólares no corrente ano, segundo a previsão feita em fevereiro pelo ministro das finanças, Abderrahmane Benkhalfa. Em cúmulo, o valor da moeda nacional, o dinar, está em queda, tendo-se depreciado cerca de 15% face ao euro ao longo de 2015, o que contribui para a perda do poder de compra dos argelinos e para o aumento da inflação, atualmente na casa dos 11%.

Perante este quadro, alguns analistas consideram que a Argélia está em vias de se tornar uma "bomba ao retardador", como referia um texto de finais de 2015 na publicação francesa Atlantico. Neste texto notava-se que o quadro económico antecipa crescentes "tensões sociais" a que há a somar os "desafios do exterior", dando-se como exemplo "o terrorismo na Tunísia", a ameaça do Estado Islâmico na Líbia e de outros grupos islamitas nos países a Sul do deserto do Sara. No entanto, para uma analista ouvida pela Atlantico, "a Argélia não está às portas de uma fase de instabilidade", explicando que o núcleo central do poder político saberá gerir a transição da era Bouteflika para um novo ciclo.

Reeleito para novo mandato em abril de 2014, Bouteflika está na presidência da Argélia desde 1999, já cumpriu 79 anos e encontra-se com a saúde extremamente debilitada. Sofreu um AVC em 2013, o que o obrigou a um tratamento prolongado em França e a posteriores hospitalizações neste país. Hoje pouco aparece em público e especula-se se terá condições para concluir o seu quarto mandato, em 2019.

Um segundo analista, Roland Lombardi, explica que o país vive ainda sob o trauma da violenta guerra civil, quando o exército tomou o poder no início de 1992 para impedir que a Frente Islâmica de Salvação, que ganhara de forma clara a primeira volta das legislativas, em dezembro de 1991, fosse governo. O conflito durou toda a década de 90 e só termina com a chegada de Bouteflika à presidência e a sua decisão de negociar a paz e uma amnistia com os islamitas.

Para Lombardi, "tudo está previsto e programado pelos três homens fortes do regime: Said Bouteflika, o irmão do presidente, o chefe de Estado-Maior, o general Ahmed Gaid Salah, e o general Athmane Sahraoui Tartag", que dirige os serviços de informações.

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